Ética sexual do Novo Testamento
Por Katsuhiro Kohara - Professor da Universidade Doshisha, Kyoto, Japão
1- Comentário inicial
A Igreja sempre teve suas diretrizes éticas para responder aos problemas
levantados no contexto social e cultural. E cada decisão tomada nessa área foi
conduzida pelo diálogo
com a Bíblia e a tradição eclesiástica, receberam influências da época em
questão. Portanto,uma diretriz moral firme na ética contemporânea pode
ser restaurada fundamentalmente em outros tempos.Exemplo típico hoje é a ética
sexual.
Concretamente podemos citar os problemas da igualdade entre
o homem e a
mulher, tendência sexual e diversidade de sexo. Estes problemas são
discutidos na sociedade geral, mas, o cristianismo deve suscitá-los e
apresentar respostas à
luz da Bíblia e tradição eclesiástica, não somente seguindo as tendências
sociais. No entanto as respostas devem ter valor e peso social, porque
estes problemas não podem ficar limitados ao círculo eclesiástico, e devem sim,
atingir a esfera social. Se estabelecermos uma ética que tenha valor
somente religioso, perdemos o problema fundamental do assunto.
Mas no cristianismo, existe historicamente, uma atitude em seguir as tendências
da sociedade, que menospreza ou considera tabus os problemas de origem sexual.
Precisamos, portanto, restabelecer a ética sexual cristã.
Podemos encontrar algumas diretrizes sobre o sexo na Bíblia hebraica (Antigo
Testamento). Os trechos geralmente citados sobre a homossexualidade são:
Gênesis19:1-19, Levítico 18:22, 20:13. Mas gostaria de
levantar as regras neotestamentárias para essa questão.
2- Homossexualidade
Antes de estudar a possibilidade da ética sexual cristã geral, gostaria de
suscitar o problema da homossexualidade que é um tema de grande relevância na
sociedade hoje.
Até que ponto, o Novo Testamento pode ser uma orientação concreta sobre a
homossexualidade que foi condenada dentro do conceito tradicional de
valor ?
Citemos os trechos do Novo Testamento que foram utilizados para criticar tal
prática: 1Cor.6:9-10; 1Tim. 1:9-10; Rm.1:26-27.
A metodologia para condenar a homossexualidade citada nestes trechos bíblicos é
evidente. Primeiramente, separam os trechos do seu contexto e utilizam-nos como
regras especiais de proibição de ética. Depois, separam estas expressões do
contexto cultural da época e as
colocam junto à palavra [homossexualidade] usada hoje como se fossem sinônimas.
Mas será que com esta metodologia podemos alcançar a verdade da Bíblia?
A) 1Cor. 6:9-10
[....Nem depravados (malakoi), nem os efeminados (arsenokoitai) ....irão herdar
o Reino de Deus]
A forma de expressão que cita os vícios, conhecida
como [Catálogo de Vícios] foi considerada comum nas literaturas
greco-romana e também na literatura helenística e judaica (cf. Sb 14:25-26). Também
Paulo usou essa Lista em outros lugares (Gl. 5:19-21, 1Cor. 5:10-11, 2Cor.
12:20, Rm.1:29-31, 13:13). Mas, quando o autor a cita, ele não a usa com
critérios de adaptação para o contexto, mas comumente como uma expressão
tradicional.
Na Primeira Carta aos Coríntios, há três [Listas de Vícios] (5:10, 5:11,
6:9-10). Aqui, Paulo pretende atacar os seguintes vícios que ele sabia que
estavam acontecendo na
própria igreja.
1) Uma pessoa conviver com a mulher do seu pai (5:1-5).
2) Levar o caso para ser julgado pelos pagãos (6:1-8).
3) União com uma prostituta (6:12-20).
Para criticar os citados vícios, Paulo utiliza cuidadosamente 3 [Listas de
Vícios]. A primeira Lista possui 4 vícios e a segunda Lista possui os vícios
da primeira Lista, acrescentando dois outros vícios (a calúnia e a bebedeira).
E a terceira Lista possui todos os vícios da primeira e da segunda Lista,
acrescentando mais 4 vícios (adultério, depravação, efeminação e roubo).
Paulo enfatiza os problemas sérios que a Igreja de Corinto possui, utilizando
as Listas retóricas. Para Paulo, não é objetivo afixar UM vício . O tema
principal de Paulo é a pureza que foi dada por Cristo e a diferença clara
contra a vida antiga. Paulo ordena
[purifiquem-se do velho fermento] (5:7) e [vocês se lavaram, foram santificados
e reabilitados] (6:11); [vocês não sabem que o seu corpo é templo do Espírito
Santo?] (6:19). É para focalizar a diferença entre a impureza antiga e a
pureza atual que deve existir na vida cristã que Paulo cita as [Listas de
Vícios].
Considerando o contexto bíblico, gostaria de aprofundar os termos
[MALAKOS] e [ARSENOKOITES]. Existem muitas discussões na
interpretação do termo [malakos].
Originalmente MALAKOS significa [efeminado] mas foi utilizado vulgarmente
como o “parceiro passivo” (muitas vezes meninos) no ato homossexual. O termo
ARSENOKOITES presente no texto grego só está presente na primeira carta aos
cristãos de Corinto e não o encontramos em outro lugar na Bíblia. Portanto, ou
Paulo inventou uma nova expressão ou aproveitou a expressão que os judeus
helenísticos criaram. A palavra ARSENOKOITES é composta do termo ARSEN
(homem) e KOITE (cama) e podemos encontra-la em Levítico 18:22 e 20:13 no
Antigo Testamento em grego. Paulo utiliza estes termos baseando-se nas Leis Divinas.
Portanto, procura entender a palavra ARSENOKOITES com ligação a Malakos.
Podemos imaginar algumas figuras ativas que utilizavam
meninos (malakos) usando do dinheiro ou do poder para satisfazer seus desejos.
Estes termos representam um estado
específico da questão homossexual e não há relação com o termo homossexualidade
que hoje nós usamos.
B) 1Tm 1:9-10
[Ela - a Lei - não é destinada ao justo, mas aos (1) iníquos e rebeldes,
(2) ímpios e pecadores, (3) sacrílegos e profanadores, parricidas e
matricidas, homicidas, (4)
impudicos (pornoi), pederastas (arsenokoitai), mercadores de escravos (andrapostai),
(5) mentirosos, para os que juram falso]
A expressão [pederastas] é associada à relação homossexual, mas podemos
esclarecer o sentido verdadeiro do termo na ligação com os termos anterior e
posterior a ela. Neste
trecho bíblico, podemos dividir em 5 grupos a Lista de Vícios.
No grupo (4) podemos entender que impudicos (pornoi), pederastas (arsenokoitai)
e mercadores de escravos (andrapostai) são expressões interligadas.
PORNOI no contexto
bíblico foi interpretado como a pessoa que pratica um ato sexual imoral; mas na
literatura grega este termo significa, comumente, o que leva à
prostituição ou o escravo que está
na casa de prostituição. PORNOI nesse sentido deve ser interpretado estreita e
originalmente na ligação com ARSENOKOITAI, ou seja, podemos entender que a
relação entre MALAKOS e ARSENOKOITAI em 1Cor. 6:9 e a relação entre
PORNOI e ARSENOKOITAI em 1Tim. 1:10 são iguais. Deste modo é possível entender
o objetivo dos mercadores de escravos (ANDRAPOSTAI) . Geralmente os
seqüestrados eram vendidos como escravos, mas os meninos e meninas
"mais bonitos" eram vendidos para casas de prostituição. Assim, quem
traficava os PORNOI (entendamos parceiros passivos) que eram usados pelos
ARSENOKOITAI (entendamos parceiros ativos), eram os ANDRAPOSTAI (mercadores de
escravo). A realidade desumana a que estavam submetidas estas três categorias,
constitui a crítica da Bíblia. Portanto, para os mercadores (ANDRAPOSTAI) que
colocam as premissas de seqüestro e escravização dos
meninos, constitui um ato desumano e pior do que o dos pederastas
(ARSENOKOITAI) em 1Cor.6:9 .
C) Romanos 1:26-27
Este trecho é o único no NT que condena o ato sexual entre o mesmo sexo. Mas
devemos entender o sentido teológico, o contexto da redação. O objetivo
teológico da Carta aos Romanos é a narrar a justiça e a graça divina que foram
reveladas pelo acontecimento Jesus Cristo. A carta enfatiza ainda o fato
de que todos os seres humanos são pecadores, sem exceção. Isto é , os
versículos de 1:26-27 devem ser interpretados a partir desse objetivo da
epístola e esta carta não foi escrita para julgar a homossexualidade em
si. Para Paulo o fato de não aceitar Deus como Deus, é a raiz do pecado e
fala ser a pessoa [digna de morte] (1:32). Neste trecho, não é claro que Paulo
faz ou não referência ao lesbianismo. Mas comparando as menções nas frases
anterior e posterior, parece que Paulo fala do lesbianismo. Na Bíblia
hebraica e nas literaturas grega e romana não existem proibições ao
lesbianismo. Neste sentido, é estranho que Paulo faça referência ao
homossexualismo e ao lesbianismo. Mas, se o objetivo de Paulo é a mostrar
que todos os seres humanos estão sujeitos ao pecado, ele tem razão de
citar o homossexualismo e o lesbianismo.
Paulo não enfatiza especificamente a homossexualidade como pecado, mas
certamente a critica. A base da crítica é o pensamento grego [contra a
natureza]. A expressão [contra a natureza] (para phusin) é precisa quando nas
culturas grega e romana “condena-se” a prática homossexual que objetiva ou
atinge meninos (crianças); mas também não há base para tal “condenação”.
Paulo também introduziu o pensamento grego helenista que condena o
homossexualismo com relação à idolatria. (Sab. 14,12). Dentro da tradição
judaica foi considerado que o homossexualismo é contra a natureza, mas não se
explicitou o motivo da condenação.
D) Conclusão
Dentre as muitas interpretações sobre os trechos bíblicos que foram mencionados,
podemos concluir o seguinte:
1) Há poucos lugares que mencionam a
homossexualidade e esta nunca é colocada como tema principal do autor no Novo
Testamento. E também, todas as menções dependem de
uma base literal e tradicional.
2) Não existe no Novo Testamento a idéia de
homossexualidade que corresponda à orientação sexual. A Bíblia sempre cita
homossexualidade em ligação com a prática
sexual que independe dos gêneros - masculino ou feminino.
3) O Novo Testamento condena claramente o homossexualismo
enquanto envolve meninos (crianças) e considera uma tal prática como desumana.
4) A Bíblia considera o ato sexual entre pessoas do
mesmo sexo como sendo mau, mas não fala porque é mau.
Portanto, a homossexualidade que o Novo Testamento questiona e a nossa
concepção e questionamentos hoje sobre tal questão, é totalmente diversa. É
impossível querer, a
partir de um trecho bíblico específico, tirar uma orientação eficaz sobre a
homossexualidade para aplica-la em nossos dias sem contextualizá-lo e entende-lo
em seu sentido original.
O estudo desse texto terá continuidade em uma segunda parte.