CARTA PASTORAL
“Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade...”
S. João 4:23
São Paulo, 13 de dezembro de 2005

Prezados irmãos e irmãs,

Graça e Paz!

No último mês de julho do presente ano, completei três anos de episcopado. Durante este período, tenho visitado nossas paróquias e comunidades como pastor de nossa Diocese e, com satisfação e alegria, venho acompanhando os esforços dos nossos clérigos que, com sabedoria e criatividade, têm buscado adorar ao Deus Trino na beleza da santidade (Salmo 96-9).

Aonde quer que vamos em nossa diocese, sentimo-nos em casa, presenciamos celebrações de louvor e adoração, seguindo critérios bíblicos, respeitando a tradição da Igreja Cristã, com a experiência litúrgica do povo de Deus, tendo como o modelo e padrão o Livro de Oração Comum; fonte inesgotável de espiritualidade para diversas gerações e culturas da “Família Anglicana”.

É gratificante saber que Paróquias antigas e jovens comunidades encontram no Livro de Oração Comum os mesmos valores da fé Católica, retidão Bíblica e zelo evangélico.

É consenso hoje, na Comunhão Anglicana, que o Livro de Oração Comum não é apenas um “manual de cerimônias”, mas, antes de tudo, uma “estrutura” para enriquecer a experiência “celebrativa” do povo de Deus; o Livro de Oração Comum é uma expressão da nossa fé, teologia e espiritualidade.

Toda a Comunhão Anglicana tem realizado, nas últimas décadas, reformas litúrgicas. Os princípios que têm orientado tais reformas são: fidelidade às Sagradas Escrituras e cuidado pastoral (a pós-modernidade exige respostas pastorais adequadas aos novos tempos ? um rito que se torne vida e responda aos anseios, alegrias e tristezas da humanidade).

O novo contexto, também, busca inclusividade ecumênica e inculturação, em que as tradições católicas e protestantes da “Igreja” têm sido desafiadas, reciprocamente, a conviverem respeitosamente. A partilha ecumênica tem permitido o enriquecimento da prática litúrgica e da vivência “celebrativa”, em que o povo de Deus reconstrói a unidade (S. João17:21).

O prefácio do Livro de Liturgia da Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, Igreja que faz parte da Comunhão Anglicana, ressalta que as recentes edições litúrgicas da Igreja Católica Romana, da Comunhão Anglicana e das confissões protestantes de origem Luterana e Calvinista são frutos admiráveis de uma cooperação interconfessional e revelam uma impressionante semelhança litúrgica, mesmo diante de diferentes tradições e contextos.

No mesmo prefácio, é apresentada uma declaração conjunta, publicada em Roma em outubro de 1989, pelo então Arcebispo de Cantuária, Sua Graça, Dr. Robert Runcie e pelo então Bispo de Roma, Sua Santidade o Papa João Paulo II: “a caminhada ecumênica não é feita somente de remoção dos obstáculos, mas de partilha dos dons”.

A Igreja Episcopal dos Estados Unidos (Ecusa), já afirmava no prefácio do LOC de 1789 (reproduzido no LOC brasileiro de 1950): “É parte inestimável daquela liberdade com que Cristo nos libertou que se permitam, no culto, diferentes formas e costumes (...) se façam com autoridade e consentimento comuns, alterações ou abreviaturas, aumentos ou correções”.

Tendo em vista preservar a nossa “identidade Anglicana”, o prefácio do atual LOC da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil ressalta que “devemos buscar um equilíbrio harmônico entre nossa preciosa tradição anglicana e as necessidades do presente momento, sem esquecer que somos uma Igreja católica que é, e deve ser, continuamente reformada, sem perder, contudo, os valores perenes e fundamentais da tradição Cristã” (LOC p.7).

Alguns “pastoralistas” estão de acordo em que é urgente, por parte dos clérigos e eclesianos, uma nova compreensão da liturgia como ato representativo das diferentes culturas existentes em nosso país, contemplando expressões litúrgicas e hinológicas que respondam às diversas necessidades e realidades da igreja contemporânea.

Diante dessa realidade emergente, e em conformidade com o jus litúrgico, o direito do Bispo diocesano de expor e sancionar formas litúrgicas em sua diocese venho, por meio da presente, apoiar e autorizar, no território canônico da Diocese Anglicana de São Paulo, o uso dos recursos litúrgicos que nossa província tem publicado.

Lembramos o que ensina Santo Agostinho, bispo de Hipona e doutor da Igreja: “Quem canta ora duas vezes”. Acreditamos que, através da música e do canto, progredimos na devoção e na mística cristã, pois encontramos nas Sagradas Escrituras, os Salmos, como expressão de louvor do Povo de Israel, cantando as maravilhas de nosso Deus, mas também fruto da experiência de um povo com o seu Criador. Temos plena convicção de que o Espírito Santo vento sempre constante, continua soprando sobre o povo de Deus, inspirando compositores e poetas em nossos dias, para que a igreja continue a louvor e a adorar ao Deus Eterno.

Em conformidade com os Cânones Gerais da IEAB, “é dever de todo Ministro designar, para o uso em sua congregação, hinos e antífonas autorizadas por esta Igreja, ou pelo Bispo Diocesano, bem como autorizar o uso de instrumentos musicais adequados” (Capítulo 2 Cânon 1.1 – art. 1 § único). Sendo assim, autorizamos nossos clérigos a usarem em suas comunidades, além do hinário episcopal, os hinários e cancioneiros produzidos em outras dioceses da IEAB (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil) ou hinários e cancioneiros das igrejas irmãs que fazem parte do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), respeitando a comunidade local.

Cremos ser de fundamental importância que nossos templos sejam espaços adequados de culto, adoração e mística cristã. Nesse sentido, incentivamos o uso de símbolos litúrgicos, flores, cores, objetos litúrgicos os demais elementos que fazem parte da Tradição anglicana e auxiliam a contemplação do mistério divino.

Encorajamos clérigos e comunidades a observarem as ocasiões “celebrativas” (festas, solenidades, dias santos) do Ano Cristão, bem como a reservarem lugar para a “Bênção da saúde” com ou sem o óleo consagrado pelo bispo diocesano.

Para que a liturgia oficial da igreja seja conhecida pelos eclesianos (o calendário litúrgico, as orações diárias matutina e vespertina, os Ritos da Santa Eucaristia, Ritos Pastorais, Salmos e o lecionário), recomendamos que todos os Ministros da Igreja, por ocasião da confirmação ou recebimento de um novo membro em comunhão, o presenteiem com um Livro de Oração Comum e que orientem a leitura da prefação e dos demais itens contidos no LOC.

Acreditamos que Deus nos convida a caminhar e construir; por isso, não tenhamos medo de nos abrirmos para o novo e, com sabedoria e entusiasmo, elaborarmos celebrações alegres, mas, acima de tudo, uma liturgia Trinitária que expresse a alegria de Deus Pai por toda a sua criação, a reconciliação de Deus Filho com a humanidade e a Santificação do Deus Espírito Santo na vida de todos os fiéis; adoremos a Santíssima Trindade em Espírito e em Verdade.

+Hiroshi Ito