Relatório de Virgínia
da Comissão Inter-Anglicana de
Teologia e Doutrina
Prefácio 3
Membros
da Comissão Inter-Anglicana
de Teologia e Doutrina 4
Introdução Origem e Mandato da
Comissão 5
Capítulo 1 O Contexto 7
Capítulo
2 Teologia do Dom Misericordioso de Deus:
A
Comunhão da Trindade e da Igreja 10
Capítulo
3 Pertencendo-se mutuamente
na Comunhão
Anglicana 15
Capítulo
4 Níveis de Comunhão -
Complementaridade
e Interdependência 25
Capítulo
5 Koinonia: Objetivo e Princípios
para
desenvolver Estruturas 31
Capítulo
6 Os Instrumentos Universais de Comunhão:
Estruturas e
Processos 36
Apêndice I Conferência de
Lambeth 1988 Resolução 18 43
Apêndice II O Congresso
Anglicano 45
Este
Relatório é obra da Comissão Inter-Anglicana de Teologia e Doutrina a qual
compreende teólogos e líderes da igreja que representam a diversidade da
Comunhão Anglicana. A tarefa desses representantes foi responder ao chamado da
Conferência de Lambeth de 1988 para considerar com alguma profundidade o
significado e a natureza da comunhão. Esta resposta era para ser determinado
dentro do contexto da doutrina da Trindade, a unidade e ordem da Igreja e a
unidade e comunidade humana. No coração e centro da peregrinação Anglicana reside
o conceito de comunhão. Dele colhemos muito de nossa crença e prática. Ele não
é um conceito estático propriamente dito. Com nossa peregrinação tornou-se uma
realidade viva e em desenvolvimento. No entanto, este fato isolado exige
entendimento o qual não pode estar vinculado a nenhum período de nossa história
ou a uma única aproximação cultural.
Este
Relatório é oferecido à Comunhão Anglicana como um passo a mais no processo de
procura de um maior entendimento do que comunhão significa para o Corpo de
Cristo. Procura, em especial, sugerir caminhos aos quais nossa Comunhão possa
responder de maneira prática que toque e diga respeito a forma como nós
determinamos nossa vida coletiva e vidas como indivíduos.
Gostaria
de expressar minha sincera gratidão ao Reverendíssimo Peter Lee, Bispo de
Virgínia, Diocese de Virgínia e à equipe do Seminário Teológico de Virgínia
pela generosidade e apoio dado à Comissão. A ajuda prática e encorajamento dado
por eles tornou a produção deste Relatório possível.
Foi
um grande privilégio presidir a Comissão e agradeço o apoio e dedicação de
todos os seus membros.
Robert
Eames
Arcebispo
de Armagh
|
Membros
da Comissão Inter-Anglicana
de
Teologia e Doutrina
|
Rev. Victor R. Atta-Baffoe, Igreja da
África Ocidental
Revmo. Bispo Colin
Bazley, Igreja Anglicana do Cone Sul da América
Arcebispo Peter F. Carnley, Igreja
Anglicana da Austrália
Revmo. Bispo J. Mark Dyer,
Igreja Episcopal, EUA
Rev. Dr. Milton B. Efthimiou,
Participante Ortodoxo
Revmª. Penelope A. B.
Jamieson, Igreja de Aotearoa, Nova Zelândia & Polinésia
Revmo. Deão Colin Jones,
Igreja da África do Sul
Revmo. Bispo Dr. Samuel B.
Joshua, Igreja Unida do Norte da Índia
Rev. Dra. Patricia G. Kiskpatrick,
Igreja Anglicana do Canadá
Rev. Samuel I. Koshiishi,
Nippon Sei Ko Kai
Professor Dr. Michael Root,
Participante Luterano
Revmo. Bispo Stanford S.
Shauri, Igreja da Tanzânia
Revmo. Bispo Stephen
Sykes, Igreja da Inglaterra
Dra. Mary Tanner, Igreja da Inglaterra
Dra. Fredrica Harris Thompsett,
Igreja Episcopal, EUA
Arcebispo Robert H. A. Eames, Igreja
da Irlanda (Presidente)
Rev.
Dr. Donald Anderson, Escritório da Comunhão Anglicana
(Secretário até Novembro de 1996)
Rev.
Côn. David Hamid, Escritório da Comunhão Anglicana
(Secretário a partir de Novembro de
1996)
Christine
Codner, Escritório da Comunhão Anglicana
(Secretária Administrativa)
Rev.
Professor David Scott, Seminário Teológico da Virgínia
(Observador)
Origem
e Mandato da Comissão
Em
1988 foi levantada uma questão na Conferência de Lambeth que desafiou a unidade
da Comunhão: a proposta feita pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos da
América para sagrar uma mulher ao episcopado. Levando em consideração suas
deliberações, a Conferência de Lambeth aprovou a Resolução 1 sobre a ordenação
ou sagração de mulheres ao episcopado. Em resposta a esta resolução da
Conferência, o Arcebispo de Cantuária, em reunião com os Primazes, estabeleceu
uma Comissão sobre a Comunhão e Mulheres no Episcopado sob a liderança do Revmo.
Robert Eames, Arcebispo de Armagh
(a)
para preparar-se para um exame das
relações entre as Províncias de Comunhão Anglicana e assegurar que o processo
de acolhimento também inclua consultas contínuas com outras Igrejas;
(b)
para monitorar e encorajar o
processo de reunião dentro da Comunhão e para oferecer orientação pastoral
adicional (The Truth Shall Make you Free, Conferência de Lambeth 1988. Resolução
1, página 201).
A
Comissão Eames, como ficou conhecida, encontrou-se cinco vezes e produziu
quatro relatórios que foram publicados simultaneamente em dezembro de 1994. A
última reunião foi realizada em dezembro de 1993 e seu relatório será
apresentado na Conferência de Lambeth 1998. Durante sua existência, a Comissão
empenhou-se em reflexões teológicas sobre a natureza de koinonia. Ofereceu
orientação sobre como os Anglicanos poderiam conviver no mais alto grau de
comunhão possível, ao mesmo tempo que diferentes opiniões e práticas referentes
a ordenação de mulheres continuavam a ser consideradas dentro da Comunhão. A
Comissão Eames viu isto como uma forma de facilitar um processo contínuo de
acolhimento não só dentro da Comunhão Anglicana mas também na ampla comunidade
ecumênica. Suas orientações visam apoiar relações de graça e boa vontade e
assegurar apropriado cuidado pastoral recíproco. Antes da última reunião, cinco
mulheres haviam sido sagradas bispos. Também neste período a ordenação de
mulheres ao sacerdócio recebeu a aprovação necessária da Igreja da Inglaterra e
mais de 1000 mulheres foram ordenadas sacerdotes, e àquela altura, mulheres também
haviam sido ordenadas sacerdotes na Austrália, Aotearoa, Nova Zelândia e
Polinésia, Brasil, Burundi, Canadá, Hong Kong e Macao, Irlanda, Quênia,
Filipinas, Escócia, África do Sul, Uganda, Estados Unidos e África Ocidental.
Entre
1988 e 1993 a Comissão Eames forneceu um modelo de como os Anglicanos podem
permanecer juntos no mais alto grau de comunhão possível enquanto tentam chegar
a um consenso em uma matéria que toca a unidade fundamental da Comunhão.
A
Conferência de 1988 reconheceu que havia uma necessidade de descrever como a
Comunhão Anglicana toma decisões que mostrem autoridade, ao mesmo tempo que mantém
unidade e interdependência tendo em mente a quantidade de questões teológicas
que surgem desta diversidade. Para atender esta necessidade, a Conferência
determinou que deveria haver:
Como uma matéria de urgência, investigação adicional
sobre o significado e natureza da comunhão com referência particular a doutrina
da Trindade, da unidade e ordem da Igreja, e a unidade e comunidade humana
(Conferência de Lambeth 1988, Resolução 18, página 216. Ver Apêndice I).
A
Resolução 8 do Relatório Final da Comissão Internacional Católico Romana-
Anglicana (ARCIC) também teve uma posição direta no exercício da autoridade na
Igreja. Esta Resolução encorajou a Comissão a examinar a base da Escritura e
tradição do conceito de uma primazia universal, em associação com o colegiado,
como um instrumento de unidade, o caráter de tal primazia na prática, e a
aproximar-se da experiência de outras Igrejas Cristãs no exercício da primazia,
colegiado e conciliação.
Na
implementação da Resolução 18 de Lambeth 1988, e a pedido dos Primazes da Comunhão,
o Arcebispo de Cantuária convidou um grupo de representativos líderes eclesiais
e teólogos para um encontro em dezembro de 1991 no Seminário Teológico da
Virgínia em Alexandria, EUA., a fim de iniciar a investigação. O relatório
deste Encontro foi chamado de Belonging Together (Pertencendo-se mutuamente). O
relatório foi amplamente divulgado dentro da Comunhão entre 1992 e 1994, com
uma solicitação para que houvesse um comentário crítico. Um grupo de igrejas
Anglicanas respondeu oficialmente. Também houveram algumas respostas de
instituições teológicas e outras individuais.
Todas
as respostas foram consideradas pela Comissão Inter-Anglicana de Teologia e
Doutrina, a sucessora do Encontro de 1991, quando da reunião de dezembro de 1994,
e novamente em janeiro de 1996, ambas as vezes no Seminário Teológico da
Virgínia. Este relatório é o produto de considerações feitas nestes encontros e
de outras reflexões sobre as questões.
1.1
Nosso Senhor Jesus Cristo rogou que seus seguidores fossem um só, como Ele e o
Pai o são, de forma que o mundo creia (João 17:20-21). Cristãos de todas as
tradições lutam para responder à fé, vida e testemunho para a visão de unidade expressada na oração de
Jesus. Em todos os níveis de vida Cristã, o chamado para interdependência
graciosa e unidade na fé e doutrina nos desafia.
1.2
Desde os primórdios da história da Comunidade Cristã, uma voz de advertência
tem sido ouvida aconselhando os fiéis a manter o entendimento recíproco e, desse
modo, evitar divisões. Desde uma data quase igualmente tão antiga, eles tem
encontrado consenso, até mesmo em questões evidentemente importantes,
particularmente difíceis de alcançar. Até o segundo século, as Igrejas
elaboraram uma coleção de documentos Cristãos iniciais , os quais vieram a ser
chamados de Novo Testamento, eles tinham poucos documentos que não atestaram e
refletiram profundas divergências, e a formação desta coleção propriamente dita
foi o produto de controvérsias. Apesar disto, as próprias controvérsias foram
estágios em direção de um consenso maior.
1.3
O que torna a unidade e a interdependência especialmente difíceis hoje em dia?
Nos últimos 200 anos o mundo viu um extraordinário desenvolvimento nas esferas
política, científica, econômica e psicológica. Estes avanços trouxeram muitas
bênçãos para as pessoas de todo o mundo. Ao mesmo tempo, houve a desintegração
de culturas tradicionais, valores e estruturas sociais e ameaças sem
precedentes ao meio ambiente. A tensão entre bênção e desintegração cria um
desafio para a unidade e interdependência que as pessoas de todo o mundo
enfrentam.
1.4
A autoridade das noções dos séculos XIX e XX sobre progresso, crescimento
econômico e economia de livre mercado, a onipotência de métodos científicos e
tecnologia, e individualismo competitivo não é mais aceita sem objeções. Em
muitos lugares existe uma procura por uma identidade cultural, pessoal e social
a qual honra a integridade e valor das raízes culturais.
1.5
Dentro deste contexto, Anglicanos empenham-se para ser fiéis ao Evangelho em
seus contextos culturais próprios e encarar as exigências moral, doutrinal,
social e econômica que demandam discernimento e resposta, se uma identidade
como a comunidade Cristã deva ser mantida. Por exemplo, questões de justiça e
direitos humanos, incluindo sexualidade, a família e o papel das mulheres,
igualdade racial, liberdade religiosa e o uso e distribuição de recursos,
exigem atenção. Nossa resposta a estas questões é condicionada pelo nosso
próprio contexto cultural, nossa maneira de interpretar a Bíblia, nosso nível
de percepção sobre ser parte de uma vasta comunidade humana e nossa atenção à
resposta de outros companheiros ecumênicos e aos problemas daqueles de outras
confissões.
1.6
As igrejas da Comunhão Anglicana lutam contra estes problemas dentro de uma
vida de comunhão e interdependência. Deve-se exercitar o discernimento sobre
quais problemas recebem maior atenção da igreja local, da província e de toda
Comunhão. Um fardo extra é colocado na tomada de decisões quando as igrejas
estão separadas uma das outras.
1.7
Novos desafios para a unidade pressionam insistentemente todas as igrejas, e
não menos aquelas que são da Comunhão Anglicana. Hoje poderíamos mencionar
questões que causam divisões no Oceano Índico e na Europa, Ruanda, Irlanda do
Norte, Nigéria e Oriente Médio, Estados Unidos, Austrália e região sudeste da
Ásia.
1.8
Quando os Cristãos encontram-se apaixonadamente engajados no meio de situações
complexas e explosivas, como eles evitam o afastamento daqueles que por batismo
são seus irmãos e irmãs em Cristo, que estão abraçados na comunhão de Deus e a
Santíssima Trindade e, no entanto, discordam? Como eles permanecem em comunhão
com Deus e uns com os outros; como eles se comportam em relação uns aos outros
face as divergências e conflitos? Quais são os limites da diversidade se a
unidade e comunhão imperativa do Evangelho devem ser mantidas?
1.9
Ao dar atenção a questões levantadas pelas complexidades da vida contemporânea,
em alguns casos soluções podem ser necessariamente provisórias. Há certos
momentos quando o caminho a frente é insuficientemente claro para que
exigências incondicionais sejam feitas. Formar uma opinião acarreta
necessariamente aprendizado daqueles entre os da Comunhão Anglicana e estar em
parceria e diálogo com colegas ecumênicos e entre fés. Há mérito na abordagem
Anglicana de ouvir os outros, em manter uns aos outros no mais alto grau de comunhão
possível, com tolerância para intensamente manter diferenças de convicção e
prática.
1.10
Enquanto estamos conscientes dos desafios significativos para nossa unidade
como uma Comunhão, reconhecemos que recebemos o Dom gracioso de Deus,
Santíssima Trindade, as fontes de nossa vida em Cristo em palavra e sacramento,
e a determinação para desenvolver estruturas apropriadas e mais eficazes para
manter a unidade em serviço e missão.
1.11
A Comissão concentrou seu estudo na compreensão da fé Trinitaria. Ela acredita
que a unidade da Comunhão Anglicana origina-se na unidade dada pelo Deus
Triuno, cuja natureza íntima pessoal e relacional é a comunhão. Este é nosso
centro. O mistério da vida de Deus chama-nos a comunhão de forma visível. Esta
é a razão pela qual a Igreja é chamada repetidas vezes a revisar e modificar as
estruturas de sua vida em comum, de forma que elas sustentem e permitam a vida
em comunhão em Deus e sirvam a missão de Deus no mundo.
1.12
As referências na resolução de Lambeth sobre a doutrina da trindade e a unidade
e comunhão de toda a família humana tornam claro que a preocupação da
Conferência de Lambeth não era apenas o fortalecimento da paz e unidade da
Comunhão Anglicana, mas também o engajamento efetivo e confiante da Comunhão na
missão de amor e reconciliação de Deus em todo o mundo.
1.13
A missão e ministério de reconciliação confiados por Deus à Igreja são dados no
batismo a todo o povo de Deus, o laos. Enquanto este relatório insiste
necessariamente nas estruturas de ministério, nos processos de supervisão e sua
interdependência e responsabilidade, ele o faz na convicção e esperança que
esta reflexão revelar-se-á na possibilidade de mudança criativa, a qual irá
fortalecer o ministério e a missão de todo o povo de Deus.
1.14
Os instrumentos da comunhão, os quais são uma dádiva de Deus para a Igreja,
ajudam a nos manter na vida do Deus Triuno. Estes são os instrumentos que
procuramos renovar dentro da Comunhão Anglicana. Eles também são estruturas que
procuramos compartilhar com todos aqueles que tenham sido batizados na vida do
Deus Triuno. Nossa esperança é que esta reflexão teológica possa contribuir não
apenas para a Comunhão Anglicana mas para o objetivo ecumênico de unidade
visível e total.
1.15
Ao refletir sobre as estruturas da unidade e autoridade Anglicanas, estamos
conscientes que o discernimento, tomada de decisões e ensinamento com
autoridade estão hoje, lamentavelmente, no contexto de Igrejas separadas, e
são, conseqüentemente, apenas reflexos parciais da Igreja Una, Santa, Católica
e Apostólica. Isto exige que os Anglicanos ouçam a experiência de outras
comunidades eclesiais e continuem a aprofundar seu trabalho de diálogo
ecumênico sobre a natureza da autoridade e seu exercício na Igreja e renovem
nossas estruturas Anglicanas em concordância com a convergência ecumênica
emergente.
1.16
Tendo feito referência neste capítulo ao contexto e desafios que os Cristãos
enfrentam hoje, o relatório continua no Capítulo 2, uma reflexão teológica a
respeito da misericordiosa dádiva de amor no Deus Triuno e como a Igreja
responde a esta dádiva no ministério que ela tem recebido de Cristo. O Capítulo
3 examina os laços de interdependência ou o que mantém os Anglicanos unidos. O
Capítulo 4 explora os princípios de complementaridade, identificando as formas
em que os laços de unidade são expressados de maneira apropriada nos diferentes
níveis da vida da Igreja. O Capítulo 5 identifica os princípios que formam a
base de nossa vida em comum e o Capítulo 6 oferece algumas observações sobre
como instituições Anglicanas internacionais de unidade podem ser fortalecidas e
melhoradas de maneira que promovam nossa vida em comum para o cumprimento da
missão de Deus no mundo.
|
Capítulo
2
Teologia
do Dom Misericordioso de Deus :
A
Comunhão da Trindade e da Igreja
|
I. A Compreensão do Dom
Misericordioso
2.1
O dom misericordioso do Deus de eterna bondade foi desde o princípio conhecida
pelo povo de Deus na forma de aliança. Dos profetas veio a convicção que a
fidelidade de Deus era eterna, mesmo quando o povo de Deus era negligente e
traía a confiança divina.
2.2
O amor e lealdade de Deus eram entendidos como tendo sido um ato de criação. A
promessa de Deus de recordar-se da aliança eterna entre Deus e toda a criatura
viva sobre a terra (Gênesis 9:17) era uma promessa que foi renovada repetidas
vezes através dos tempos.
2.3
A palavra de Deus a Moisés em Êxodo 3:14 expressa a promessa divina que
estabelece eternamente a esperança de comunhão inter-relacional entre Deus e
Seu povo em um relacionamento duradouro e pessoal, mesmo no meio da tragédia.
2.4
O povo de Deus interpretou a memória da Aliança do Sinai em palavras lembradas
como ditas por Moisés, palavras que para sempre definiriam o relacionamento
sagrado de Deus com o povo escolhido:
“Porque tu és povo santo ao SENHOR teu Deus: o SENHOR
teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos
que há sobre a terra. Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu, porque
fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os
povos. Mas porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a
vossos pais. (Deuteronômio 7:6-8a)”.
2.5
O escolhido de Deus, o povo de Israel, contaria a história do infalível amor de
Deus em uma desejada intimidade e paixão. Então o profeta é levado a proclamar:
Nunca mais te chamarão Desamparada, nem a tua terra se
denominará jamais Desolada; mas chamar-te-ão Minha Delícia, e à tua terra
Desposada; porque o SENHOR se delicia em ti; e a tua terra se desposará.
“Porque, como o jovem esposa a donzela, assim teus
filhos te esposarão a ti, como o noivo se alegra da noiva, assim de ti se
alegrará o teu Deus (Isaías 62:4-5)”.
e
no meio do desespero e angústia Jeremias fala do amoroso ato de restauração de
Deus:
“Porque esta é a aliança que firmei com a casa de
Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR. Na mente lhes imprimirei as minhas
leis, também no coração lhas escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o
meu povo (Jeremias 31:33)”.
2.6
Jesus falou deste Deus de eterna bondade e fidelidade, seu Pai. Ele rogou: "
Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas
aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque
assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o
Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o
Filho quiser revelar" (Mateus 11:25-27).
2.7
A boa notícia do Evangelho Cristão é que a vida de Jesus entre nós é a vida de
Deus - Deus derrubando as barreiras de nossa servidão e pecado. Em Jesus, Deus
está conosco em todo nosso desamparo humano, em nossa vida e nossa morte. Em
Jesus, Deus é fiel a nós, mesmo em uma cruz. Em Jesus ressuscitado, Deus está
conosco para transfigurar e libertar todos aqueles que estão aprisionados pelo
medo e pelo pecado. Jesus é Deus conosco e conhecer Jesus é estar com Deus.
Deus compartilhou nosso mundo conosco, e através dos grandes eventos da cruz e
ressurreição, nós somos convidados a compartilhar da vida de Deus, compartilhar
da glória e da liberdade de Deus e a proclamar a santidade e a misericórdia de
Deus em palavra e ato. Conhecemos Deus a medida que vivemos com Jesus. De tal
modo que podemos e devemos dizer que a vida de Jesus é o ato e expressão de
Deus (Conferência de Lambeth 1988, página 82).
2.8
O clímax da revelação do Filho a respeito do Pai ocorre na paixão, morte e
ressurreição de Jesus. Na noite anterior a sua morte, Jesus revelou que a
comunhão de amor que ele compartilhou com o Pai seria compartilhada pela
comunidade de seus discípulos. O Evangelho segundo João lembra o momento
profundo da dádiva misericordiosa de amor de Deus.
Como o Pai me amou, também eu vos amei, permanecei no
meu amor. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em
favor dos seus amigos. Tenho-vos chamado amigos porque tudo ouvi de meu Pai.
Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós
outros, e vos designei para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça;
a fim de que tudo que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. Isto vos
mando, que vos ameis uns aos outros (João 15, 9, 13, 15-17).
2.9
O amor com o qual o Pai ama Jesus é o amor com o qual Jesus nos ama. Na noite
anterior a sua morte, Jesus rogou (João 17) que todos que o seguem deveriam ser
atraídos por aquele amor e unidade que existe entre o Pai e o Filho. Assim,
nossa unidade uns com os outros é alicerçada na existência de amor, unidade e
comunhão da Divindade. O amor eterno, mútuo, doador e receptivo das três
pessoas da Trindade é a fonte e base de nossa comunhão, de nosso companheirismo
com Deus e uns com os outros. Através do poder do Espírito Santo, nós somos
levados a um amor e unidade de fraternidade divina. Além disso, já que a
Santíssima Trindade é uma única unidade de propósito e, ao mesmo tempo, uma
diversidade de maneiras de existência e função, a Igreja é chamada a expressar
a diversidade em sua própria vida, uma diversidade mantida junta na unidade e
amor de Deus (Conferência de Lambeth 1988, página 130).
2.10
Na Última Ceia com seus discípulos, Jesus prometeu o derramamento do Espírito
Santo de Deus. Ele orou para que Deus viesse à comunidade como o dom do
Espírito Santo. O Espírito daria testemunho da verdade de tudo que Jesus disse e fez.
Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a
fim de que esteja para sempre conosco. O Espírito da verdade, que o mundo não
pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele
habita convosco e estará em vós.
Jesus
continua,
Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e
vós em mim e eu em vós. Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é
o que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu também o amarei
e me manifestarei a ele (João 14:16-17; 20-21).
2.11
O envio do Espírito Santo no Pentecostes criou a Igreja, a comunidade de Jesus
Cristo. O Espírito Santo elevou a comunidade à verdadeira vida de Deus: Pai,
Filho e Espírito Santo. O Espírito habilitou a comunidade a rezar "Abba,
Pai" como filhos de Deus livres e adotados (Romanos 8:15-17, Gálatas
4:4-7). "Do alto sejais revestidos de poder" (Lucas 24:49), a comunidade
é fortalecida para prosseguir e proclamar as Boas Novas de Deus a todos os
povos e nações. O Espírito Santo é o poder unificador de Deus na comunidade. A
unidade da Igreja que é dada, e que ainda procura se aprofundar, é baseada na
absoluta unidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo (Efésios 1:3-14, 4:1-6).
2.12
Todo ato de Deus é um ato indiviso da Santíssima Trindade. A própria vida da
Igreja é desse modo dependente do abundante amor misericordioso de Deus, o amor
do Pai, Filho e Espírito Santo. A experiência da verdade da revelação de Deus
em Jesus Cristo veio aos discípulos na forma de um dom misericordioso. O que os
discípulos vivenciaram no Pentecostes em Jesus Cristo foi a comunhão da vida
com Deus que estava presente na criação e será consumada na plenitude dos
tempos.
II. A Comunhão da Trindade e a
Vida da Igreja
2.13
Pelo poder do Espírito Santo, a Igreja nasceu na história como o Corpo de
Cristo (I Coríntios 12:27). A Igreja é chamada de o templo de Deus (I Coríntios
3:16), uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo que Deus
proclama como seu (I Pedro 2:9). Estas imagens da Igreja falam de uma comunhão
com Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Os Cristãos são participantes da natureza
divina. Esta comunhão também determina nosso relacionamento uns com os outros.
"O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós
igualmente mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com
seu Filho, Jesus Cristo" (I João 1:3). A Comunhão com Deus e com os outros
é, ao mesmo tempo, um presente e uma divina esperança para a Igreja (Eames I,
Koinonia e Mistério de Deus, 21-22).
2.14
Porque a Igreja como comunhão participa da comunhão de Deus, Pai, Filho e Espírito
Santo, ela tem uma realidade e significância escatológicas. A Igreja é o
advento, na História, da vontade última de Deus sendo realizada “assim no terra
como no céu”. Esta vontade foi revelada na vida e ministério de Jesus Cristo e
é continuamente inspirado pela ação do Espírito na vida e na missão da Igreja.
A Igreja é o ícone do futuro, através do qual Deus está conduzindo a história
do mundo. Uma igreja fiel significa, pela sua vida, que ela é a promessa viva
do propósito de Deus no meio da história contemporânea. A Igreja vive no
presente, lembrando repetidas vezes (anamnese) o evento de Cristo e recebendo
em esperança a promessa do Reino. Desta forma, os eventos salvadores da morte e
ressurreição de Cristo e o “aperitivo” do Reino são trazidos à experiência
atual da Igreja.
2.15
A Igreja olha para o futuro em Cristo, pelo poder do Espírito Santo, até o dia
em que o nome de Deus será santificado, o Reino de Deus virá, e quando a
vontade de Deus será feita assim na terra como no céu. São Máximo, o Confessor,
teólogo do VII século, colocou desta forma: "As coisas do passado são
sombra; aquelas do presente um ícone; a verdade deve ser encontrada nas coisas
do futuro" (Escolião na hierarquia eclesiástica 3,3:2). A comunidade
cristã leal a Deus, é enfocada na visão do reino final e definitivo de Deus.
Sua missão é ser o sinal vivo e visível do reino divino, quando Ele habitará
neles como seu Deus; "eles serão seu povo, e o próprio Deus estará com
eles; ele enxugará todas as lágrimas de seus olhos. Morte não existirá mais;
lamentos e choro e dor não existirão mais; porque as primeiras coisas dissiparam-se"
(Apocalipse 21:3-4).
III. A Comunhão da Trindade e
Missão e Ministério
2.16
Uma fé viva no Deus de Jesus Cristo leva-nos para dentro da vida da Santíssima
Trindade. Isto significa viver como Jesus entendeu e viveu sua vida, revestido
dos poderes do Espírito de Deus:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me
ungiu para trazer os boas novas aos pobres. Ele enviou-me para proclamar
libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para libertar os
oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:18-19).
2.17
O mesmo Espírito do Senhor repousa sobre a Igreja e habita nos corações dos
crentes, revestindo de poder a comunidade para seguir como Cristo o fez para
proclamar o Reino de Deus. A missão da Igreja é ser o ícone da vida de Deus.
Pela oração e louvor, misericórdia e paz, justiça e amor, constantemente
acolhendo bem em seu santuário o pecador, o excluído, o marginalizado, a Igreja
é revelada como comunhão e mantém-se fiel a sua missão. Como Corpo de Cristo (I
Co 12:27), Templo do Espírito Santo (I Co 1;16), Povo de Deus (I Pe 2:9), a
Igreja vive em amor mútuo e é enviada adiante como uma comunidade missionária
para congregar toda a criação no amor reconciliador de Deus, restaurá-la e
renova-la na vida do Deus Triuno (Rm 8:19-25).
2.18
A missão de Cristo e da Igreja é celebrada e proclamada na liturgia que molda a
fé Trinitária do povo de Deus e que reveste-o de poder para uma vida de ministério
e missão. Isto é especialmente verdadeiro em relação ao Santo Batismo e a Santa
Eucaristia.
2.19
Como sacramento de iniciação na vida da Igreja, o batismo é relacionado não só
a uma experiência única, mas a um crescimento permanente em Cristo e na
participação em seu ministério. Aqueles que são batizados são chamados a
refletir a glória de Deus com um sempre crescente esplendor, a medida que eles
são transformados pelo poder do Espírito Santo à sua semelhança. A medida que
eles crescem na vida de fé cristã, fiéis batizados demonstram que a humanidade
pode ser regenerada e libertada. Eles tem uma responsabilidade comum de dar testemunho na
Igreja e no mundo do Evangelho de Cristo, "o Libertador de todos os seres
humanos" (BEM, Batismo 9,10).
2.20
A Eucaristia também abrange todos aspectos da vida. É um ato representativo de
ação de graças e ofertório em nome do mundo inteiro. A celebração da Eucaristia
exige reconciliação e partilha entre aqueles que são irmãos e irmãs na família
única de Deus, e constantemente desafia aqueles que participam na procura por
relacionamentos adequados na vida social, econômica e política (Mt 5:23f. I Co
10:16f; 11:20-22. Gl 3:28). Toda injustiça, racismo, separação e negação de
liberdade são radicalmente desafiados quando os cristãos compartilham do Corpo
e Sangue de Cristo. Através da Eucaristia, a graça de Deus penetra, restaura e
renova a personalidade e dignidade humanas. A Eucaristia envolve os fiéis no
evento central da história do mundo, a paixão, morte e ressurreição de Cristo,
e envia-os ao mundo em paz para amar e servir ao Senhor (BEM, Eucaristia 20).
2.21
Jesus Cristo manifesta e completa para nós a missão e ministério criativos,
reconciliadores e aperfeiçoadores de Deus para o mundo. Todo o ministério cristão
é enraizado naquele único ministério de Jesus Cristo. O centro do ministério de
Jesus é a doação de si mesmo na cruz para a reconciliação entre Deus e a
humanidade e a restauração de toda a família humana (Colossenses 1:19; II Co
5:19). A paixão, morte e ressurreição de Cristo induz ao relacionamento aqueles
que tornaram-se alienados, individual e conjuntamente. A obra reconciliadora de
Cristo, a absoluta essência das boas novas Cristãs, traz a todos que o recebem
à vida Trinitária de partilha e inter-relacionamento.
2.22
Cristo chama os seres humanos a compartilhar aquela obra amorosa e redentora de
Deus e investe-os de poder, com seu Espírito, para aquele ministério. Jesus
pregou "Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao
mundo" (João 17:18). Cristo chamou e equipou seus discípulos e os enviou
para refletir seu próprio ministério de cura, ensinamento, liderança, alimento
e proclamação. Através dos aspectos variados do ministério único da Igreja, o
Reino que Jesus proclamou é trazido à expressão histórica.
2.23
Ser batizado e participar da Mesa do Senhor é ser incumbido da missão única e
contínua de Cristo através da Igreja. Os batizados são chamados a unidade e
interdependência. Unidos em Cristo, cada membro do Corpo relaciona-se com o
outro membro; eles são interdependentes em e através de Cristo. Celebrar a
eucaristia juntos revela e constrói esta reciprocidade; "nós que somos
muitos, somos um só corpo porque todos nós participamos do mesmo pão". Na
eucaristia o Espírito afirma e renova a comunhão em Cristo e os dons dados a
nós para participar da divina missão.
2.24
O Espírito Santo concede a comunidade dons diferentes e complementares (cf.
BEM, Ministério 5). Deus, o Criador, abençoa as pessoas com muitos talentos e
habilidades. O Espírito Santo agracia os indivíduos com dons especiais. O
desenvolvimento do dom de uma única pessoa na Igreja é inconcebível separado de
todos os outros. A mutualidade e interdependência de cada membro e cada parte
da Igreja é essencial para o cumprimento da missão da Igreja. Nos primórdios da
Igreja, aqueles que falavam em línguas precisavam de intérpretes para as
línguas. A missão de Paulo aos pagãos complementava a missão de Pedro aos
Judeus. O ministério de servir as mesas nos primórdios da Igreja libertou os
outros discípulos para pregar a palavra de Deus. Os dons de todos contribuem
para a construção da comunidade e para o cumprimento de seu chamado.
2.25
Porém a missão única da Igreja, o Corpo de Cristo, deve sempre encontrar sua
motivação, inteligibilidade e integridade no ministério único do Senhor da
Igreja, Jesus Cristo. A variedade e diferença entre carismas cristãos
rapidamente tornariam-se incoerentes e desqualificados se tornassem
excêntricos, sem referência ao seu centro em Cristo. Uma função importante da
vida em comunhão é sempre manter-se atento uns aos outros , principalmente
quando surge um conflito, de forma que o centro nunca seja esquecido. Visto na
“moldura” da missão de Deus de amor em Cristo e o Espírito, a variedade de
dons, que pode parecer ser potencialmente divisiva, é vista como sendo
necessária, mutuamente enriquecedora e um motivo para agradecimentos e louvor a
Deus.
2.26
Deus convidou seu povo a apreciar a diversidade. Como corpo de Cristo, a Igreja
deve afirmar esta variedade de dons e usá-la lealmente, tanto para a construção
do corpo "até que todos nós cheguemos à unidade da fé e do pleno
conhecimento do Filho de Deus, à perfeita maturidade à altura da estatura da
plenitude de Cristo" e para "preparar os santos para o trabalho do
ministério" (Ef 4:12-13).
|
Capítulo
3
Pertencendo-se
Mutuamente
na
Comunhão Anglicana
|
3.1
Os Anglicanos se mantém unidos em uma vida de visível comunhão. O Batismo é a
dádiva de Deus de unidade, a forma pela qual uma pessoa participa da vida de
Deus, Pai, Filho e Espírito Santo e é trazida a uma comunidade viva de fé. A
confissão de uma fé comum, a celebração da eucaristia, uma vida de oração
comum, o serviço de um ministro ordenado, estruturas conciliares, serviço e missão
compartilhados sustentam uma vida de pertença Anglicana. Estes elementos
pertencem a Igreja universal e não são unicamente Anglicanos. No entanto, eles
sobreviveram de uma maneira reconhecível e caracteristicamente Anglicana.
3.2
No século XVI, membros da Igreja da Inglaterra continuaram a se entender como
personificação local da Igreja Católica, continuando a viver na Inglaterra com
a mesma fé, sacramentos e ministério da Igreja através dos tempos. E eles ainda
desenvolveram uma imagem de família que hoje caracteriza os Anglicanos que
vivem não só na Inglaterra mas também nas 36 províncias da Comunhão Anglicana.
3.3
Uma característica da vida Anglicana é a maneira com que ela conserva unidas
diversidades de muitos tipos. Desde a Reforma, os Anglicanos empenharam-se em
manter unidas pessoas de diferentes temperamentos, convicções e discernimento,
incluindo os puritanos que queriam uma reforma mais radical e os conservadores
que enfatizaram sua continuidade com a pré-reforma da Igreja. Hoje, por
exemplo, evangélicos, católicos, liberais e carismáticos carregam uma
diversidade de discernimentos e perspectivas, como esforços anglicanos para responder
aos desafios contemporâneos aos ensinamentos de fé, ordem e moral. Ligados a
estes grupos estão as diferenças que surgem da variedade de reações aos estudos
críticos da Bíblia, contextos culturais particulares, diferentes escolas de
pensamento filosófico e teoria científica. A insistência da Reforma em garantir
as Escrituras no vernáculo abriu a possibilidade de que a fé seja expressa na
língua, símbolos e imagens de diferentes contextos culturais.
3.4
Na melhor das hipóteses, o jeito Anglicano é caracterizado pela generosidade e
tolerância para com aqueles de diferentes opiniões. Ele também requer uma
disposição para abranger diferenças e viver com tensão, até mesmo conflito, na
medida que a Igreja procura um senso comum para questões controversas. A
amplitude que marca a Comunhão Anglicana não é um sinal de fraqueza ou
incerteza sobre as verdades centrais da fé. Nem significa que os Anglicanos
aceitam que não há limites para a diversidade.
I. O
Jeito Anglicano: Escrituras, Tradição e Razão
3.5
Os anglicanos se mantém juntos pela maneira característica na qual eles usam as
Escrituras, tradição e razão para um atualizado discernimento do desígnio de
Cristo para a Igreja em cada geração. Isto foi bem explicado no Relatório das
Preocupações Pastorais e Dogmáticas, uma das partes de Lambeth 1988.
3.6
Os anglicanos afirmam a soberana autoridade das Santas Escrituras como
instrumento através do qual Deus pelo Espírito comunica sua palavra na Igreja e
assim habilita as pessoas a responder com compreensão e fé. As Escrituras são "
testemunho
único e inspirado para revelação divina", e "a norma primária para a
fé e vida Cristã".
3.7
Entretanto, as Escrituras devem ser traduzidas, lidas e compreendidas, e seu
significado deve ser entendido através de um processo contínuo de
interpretação. Desde o século XVII, os Anglicanos sustentam que as Escrituras
devem ser compreendidas e lidas à luz proporcionada pelos contextos de
"tradição" e "razão".
3.8
De certo modo tradição significa as Escrituras propriamente ditas, no que elas
personificam "a tradição", "a mensagem", e "a fé
outrora dada aos santos". Tradição refere-se a contínua vida guiada pelo Espírito
da Igreja que recebe e, ao receber interpreta de maneira atualizada a mensagem
eterna de Deus. A tradição viva abrange os credos ecumênicos e as orações
eucarísticas clássicas, os quais com as Escrituras são formadores de sua
mensagem essencial. Tradição não deve ser compreendida como um acúmulo de
fórmulas e textos, mas sim como a compreensão viva, o centro vital da Igreja. O
apelo Anglicano à tradição é o apelo a esta Compreensão da Igreja influenciada
pela adoração, ensinamento e vida no Espírito.
3.9
Na verdade, "razão" significa simplesmente a capacidade do ser humano
para simbolizar , e assim ordenar, compartilhar e comunicar sua experiência. É
a dádiva divina em virtude da qual as pessoas respondem e agem com percepção em
relação ao seu mundo e a Deus, e estão abertas para aquilo que é a verdade em
todo o tempo e lugar. Razão não pode ser separada das Escrituras nem da
tradição, já que nenhuma é concebida separada da atividade da razão. Em outra
perspectiva, razão significa nem tanto a capacidade de dar sentido a coisas
como aquilo "que faça sentido" ou "que seja razoável". O
apelo a razão então torna-se o que as pessoas - e isto quer dizer pessoas em um
determinado tempo e lugar - entendem por bom senso ou senso "comum".
Refere-se ao que pode ser chamado "a compreensão de uma cultura
particular", com suas maneiras características de ver as coisas, perguntar
sobre elas, e explicá-las. Se tradição é a compreensão que os Cristãos
compartilham como fiéis e membros da Igreja, razão é a compreensão que eles
compartilham como participantes em uma determinada cultura.
3.10
O Anglicanismo vê a razão no sentido da "compreensão" da cultura na
qual a Igreja vive e o Evangelho é proclamado, como um instrumento legítimo e
necessário para a interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras. Algumas
vezes as Escrituras afirmam novos discernimentos de uma determinada cultura ou
era; algumas vezes elas desafiam ou contradizem estes discernimentos. A Palavra
de Deus é dirigida a Igreja como parte do mundo. O Evangelho nascido das
Escrituras deve ser ouvido e interpretado nas línguas que dão testemunho ao
"discernimento" e purificam a experiência do mundo. Tradição e razão
são, portanto, no jeito Anglicano, dois contextos distintos nos quais as
Escrituras falam e pelas quais são interpretadas.
3.11
O característico jeito Anglicano de viver com uma constante e dinâmica
interação das Escrituras, tradição e razão significa que o desígnio de Deus tem
de ser constantemente atualizado, não somente cada época, como também em cada
contexto. Além do mais, a experiência da Igreja como ela é vivida em diferentes
lugares tem algo para contribuir para o discernimento do desígnio de Cristo
para a Igreja. Nenhuma cultura, nenhum período da história tem o monopólio de
discernimento na verdade do Evangelho. É essencial para a completa percepção da
verdade que o contexto esteja em diálogo com o contexto. Algumas vezes a experiência
vivida de uma determinada comunidade possibilita que a verdade Cristã seja percebida
de uma maneira nova por toda a comunidade. Em outras situações um desejo por
mudança ou reafirmação da fé em algum lugar provoca uma crise dentro de toda a
Igreja. Com o objetivo de manter a Comunhão Anglicana vivendo como uma
comunidade dinâmica de fé, e buscando a relevância da compreensão da fé,
estruturas para aconselhamento e decisão são parte essencial da vida da
Comunhão.
II. O Jeito Anglicano:
Sacramento e Adoração
3.12
Fundamental para o jeito Anglicano de viver e responder a diversidade é a
constante interação e influência das Escrituras, tradição e razão. As
Escrituras são lidas e interpretadas no ciclo diário da oração comum e da
celebração dos sacramentos. Na adoração, a fé é encontrada ao ouvir a palavra e
na vivência do sacramento. No sacramento do batismo, Cristãos morrem e renascem
com Cristo através das águas do batismo para uma nova vida em Cristo. Na
eucaristia, eles encontram os mistérios principais da fé na anamnese, o tornar
presente aqueles eventos passados e a vivência da glória futura, através do
poder do Espírito Santo. Palavra e sacramento são fundamentais para a vida da
Comunhão Anglicana, na medida que ela procura ensinar a fé e dar orientação
para a conduta correta na vida humana, expressando-os em doutrina e orientação
moral. A imagem de família em oração comum expressa em muitas línguas é uma
herança preciosa, bastante significativa na formação da identidade Anglicana e
na manutenção da unidade. O compromisso de orar diariamente, ler a escritura
sistematicamente, rezar os salmos e cânticos, regularmente confessar a fé no
credo, e fazer intercessões pelos outros e pelas necessidades do mundo são
parte integral da pertença Anglicana.
3.13
Todos estes recursos mantém os Anglicanos vivendo juntos em fidelidade à
memória e esperança de Jesus sob a orientação do Espírito Santo, que conduz a
toda verdade. Na atualidade eles estão ligados um ao outro na medida em que
eles lembram o passado e antecipam a reconciliação de todas as coisas em Cristo
no final dos tempos.
III. Interdependência de
Carismas na Vida da Igreja
3.14
A todos aqueles que são batizados na vida de Deus e vivem o resto de seus dias
o chamado como membros da Comunhão Anglicana é dado o carisma do Espírito Santo
para a vida em Comunhão e para o serviço de outros. A vocação do Laos é exercitada
em um amplo contexto de vida social e pública na sociedade civil, no trabalho,
no lazer dentro da família, assim como dentro da vida da comunidade da Igreja.
Em virtude do batismo, todos os membros são chamados a confessar sua fé e
prestar conta de sua esperança no que fazem e dizem.
3.15
O chamado de pessoas leigas é para representar Cristo e sua Igreja, para
prestar testemunho dele onde quer que eles estejam e de acordo com
os dons dados a eles, levar adiante o trabalho de Cristo de reconciliação no
mundo e para tomar parte na vida, adoração e governo da Igreja.
3.16
Para possibilitar que a comunidade de fé responda ao chamado de Cristo, Deus
deu a Igreja o carisma de ordenar ministros: o episcopado, o presbiterado e o
diaconato. O ministério ordenado é exercido com, em e entre todo o povo de
Deus.
3.17
O chamado de um bispo é para representar Cristo e sua Igreja, especialmente
como apóstolo, sacerdote líder, professor e pastor de uma diocese, para guardar
a fé, unidade e disciplina de toda a Igreja, para proclamar a palavra de Deus,
agir em nome de Cristo para a reconciliação do mundo e a construção da Igreja e
ordenar outros para continuar o ministério de Cristo.
3.18
O chamado de um sacerdote ou presbítero é para representar Cristo e sua Igreja,
especialmente como pastor para o povo, compartilhar com os bispos a supervisão
da Igreja, proclamar o Evangelho, ministrar os sacramentos e abençoar e
declarar perdão em nome de Deus.
3.19
O chamado de um diácono é para representar Cristo e sua Igreja, especialmente
como servo daqueles que necessitam, ajudar bispos e sacerdotes na proclamação
do Evangelho e no ministério dos sacramentos ( ECUSA, LOC, páginas 855-856 ).
3.20
As dádivas complementares doadas pelo Espírito Santo para a comunidade são para
o bem comum e para a construção da Igreja a serviço do mundo para o qual a
Igreja é enviada.
IV. O Ministério da Supervisão
3.21
A continuação do ministério da supervisão (episkopê) na Reforma exercido por
bispos, por bispos colegiadamente e por bispos em concílio é o que é mencionado
nos escritos ecumênicos atuais como as formas "pessoais, colegiais e
comunais" de exercitar o ministério da supervisão. Estas formas de
ministério ajudam a manter os Anglicanos unidos em uma comunidade de
discernimento e reflexão.
3.22
Toda diocese na Comunhão Anglicana conhece alguma coisa a respeito do exercício
do ministério pessoal da supervisão do bispo (ou bispos), do colegiado na
reunião de bispos e clero, e da dimensão comunal da supervisão que reúne o
bispo, o clero e os leigos nos encontros em sínodos. Estas dimensões do
ministério da supervisão são manifestadas de diferentes maneiras nas diferentes
regiões do mundo e são afetadas por circunstâncias e costumes locais.
3.23
O bispo preside reuniões, colegiadas e comunitárias, na diocese. Algumas vezes
o bispo compartilha com outro membro leigo a presidência das reuniões. Na
maioria dos lugares no nível de Província, as reuniões colegiais e sinodais são
presididas por um arcebispo ou bispo presidente. Colegiado e primazia são,
portanto, parte da experiência Anglicana nos níveis diocesano, Provincial e de
toda a Comunhão. Dentro da Comunhão, a primazia Provincial, influenciada pelos
diferentes contextos culturais, varia na percepção e prática.
V. Estruturas de Interdependência
3.24
A vida de pertença mútua, com seu espírito característico dentro da Comunhão
Anglicana, é sustentada por uma teia de estruturas que mantém unido e guia uma
vida de convivência comum. Estas estruturas devem algo a sua continuidade com a
Igreja católica ocidental e também a Reforma ocorrida no século XVI. Elas
passaram por considerável aperfeiçoamento desde o século XVI e continuam a ser
objeto de mudança e aperfeiçoamento nos dias de hoje.
3.25
Na Reforma, a Igreja da Inglaterra manteve a tríplice ordem de ministérios na
continuidade com a Igreja primitiva. Bispos em suas dioceses continuaram sendo
o foco pessoal da continuidade e unidade da Igreja. Não houve tentativa de
minimizar o papel dos bispos como ministros da palavra e sacramento, nem de
interromper uma relação colegial entre bispos e presbíteros na diocese, ou
bispos uns com os outros no nível de Província. A vida conciliar continuou
sendo parte da experiência da Igreja da Inglaterra. O papel do Parlamento e da
Supremacia Real asseguraram que o papel e lugar dos leigos fossem embutidos na
estruturação da vida da Igreja da Inglaterra. Rapidamente isto evoluiu para
estruturas sinodais, as quais une ordenados e leigos para o discernimento,
tomada de decisões e ensinamentos oficiais.
3.26
A expansão da Igreja da Inglaterra em conseqüência da colonização Britânica
levou à formação de Províncias, cada uma com sua própria estrutura episcopal e
sinodal para manter a vida da Igreja. No período pós-colonial do século XX,
várias Igrejas Anglicanas independentes são dirigidas por sínodos os quais
reconhecem a autoridade dos bispos de alguma maneira como sendo crucial e
distinta, mas incluem não apenas representação presbiteral, mas também
representação leiga. Cada Província, também, desenvolveu alguma forma de ofício
primacial no papel de arcebispo ou bispo presidente.
3.27
A expressão de episcopado e a forma de direção sinodal e colegial não são
idênticas em cada lugar. A experiência e exercício de autoridade no contexto
local tomaram parte na formação das diferentes estruturas e processos
Provinciais. Em alguns lugares, a crescente ênfase na forma democrática de
representação em governos seculares modernos também afetaram a direção da
igreja.
3.28 No
desenvolvimento da Comunhão Anglicana, não há autoridade legislativa acima do
nível Provincial. (Até onde isto é um resultado da Supremacia Real na Igreja da
Inglaterra é uma questão para reflexão. Outros fatores históricos em outras
Províncias também afetaram as questões de autonomia e interdependência). Tem
havido uma insistência sobre a autonomia das Províncias da Comunhão Anglicana.
No entanto, enquanto a autonomia implica o direito legal e jurídico de cada
Província para governar sua própria maneira de viver, na prática, autonomia
nunca foi o único critério para compreensão da relação de Províncias umas com
as outras. Geralmente existe um entendimento implícito de convivência e
interdependência. A vida da Comunhão é mantida unida na tensão criativa da
autonomia e interdependência Provincial. Existem alguns sinais de que as
Províncias estão chegando à convicção de que elas precisam dos recursos
espirituais, intelectuais e materiais umas das outras, a fim de que possam
cumprir suas tarefas de missão. Cada Província tem algo distinto para oferecer
as outras e precisa delas sucessivamente para serem capazes de testemunhar a Cristo efetivamente em seu próprio contexto.
Questões são levantadas a respeito de continuarmos como uma Comunhão mundial
com autoridade moral, mas não com estruturas de tomada de decisões
juridicamente atadas no nível internacional. Uma questão adicional é o
relacionamento entre a autonomia da Província e a importância teológica da
diocese, a qual é considerada a unidade básica do Anglicanismo.
3.29
A interdependência das Províncias vem sendo mantida por certos ministérios,
estruturas e relacionamentos que continuam a se desenvolver. O primeiro destes
é o Arcebispo de Cantuária.
3.30
Embora o pedido para a primeira Conferência de Lambeth em 1867 tenha vindo da Comunhão
e não de Cantuária, reuniram-se sob o convite do Arcebispo de Cantuária, que também
presidiu os trabalhos. O contínuo papel de Cantuária, como um foco da unidade
da Comunhão Anglicana e o "primeiro entre iguais" no colegiado de
bispos Anglicanos, chegou à clara expressão desta maneira. A primazia de
Cantuária, o colegiado e a conciliaridade internacionais do Anglicanismo estão
interrelacionadas de maneira inseparável.
3.31
A primazia da Sé de Cantuária e seu papel-chave na Comunhão emergiu claramente
em meio as resoluções da primeira Conferência de Lambeth. No entanto, na
Conferência de 1867 o papel do Arcebispo de Cantuária na reunião da Comunhão
foi explicitamente reconhecido e afirmado, quando ele foi instigado a encorajar
a manutenção e desenvolvimento da Comunhão ao convocar a Conferência de bispos
a cada dez anos.
3.32
Hoje a identidade e autenticidade Anglicana de convivência é geralmente
determinada pelo teste aparente e visível de comunhão da Sé de Cantuária. A
Conferência de Lambeth de 1930 definiu explicitamente Anglicanismo deste forma:
É parte da Igreja Santa Católica e Apostólica. Seu
centro de unidade é a Sé de Cantuária. Para ser Anglicano é necessário estar em
comunhão com esta Sé.
A
Resolução 49 acrescentou depois:
A Comunhão Anglicana é uma comunidade fraterna, com a
Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica ... em comunhão com a Sé de Cantuária
(Conferência de Lambeth 1930, Resolução 49).
3.33
A Conferência de Lambeth de 1968 descreveu o papel do Arcebispo de Cantuária em
mais detalhes:
Dentro do colégio de bispos é evidente que deve haver
um presidente. Na Comunhão Anglicana esta posição é, no momento, mantida pelo
ocupante da histórica Sé de Cantuária, que desfruta de uma primazia de honra,
não de jurisdição. Esta primazia envolve de uma maneira especial, aquele
cuidado de todas as igrejas, o qual é compartilhado por todos os bispos.
3.34
A Conferência de Lambeth de 1978 em uma declaração adicional sobre a base da
unidade Anglicana disse inter alia :
Sua unidade é particularmente baseada no relacionamento
fiel de cada uma das igrejas com o Arcebispo de Cantuária que é livremente
reconhecido como sendo o foco da unidade.
3.35
Estar em comunhão com a Sé e o Arcebispo de Cantuária tem sido um sinal visível
da associação de bispos e de suas Igrejas na Comunhão Anglicana. A tarefa do
Arcebispo de Cantuária foi descrita como sendo revestida a incluir "de uma
maneira especial, aquele cuidado de todas as igrejas o qual é compartilhado por
todos os bispos" e também como uma tarefa "não para comandar mas para
reunir" a Comunhão. Evidentemente, a ênfase é no serviço e cuidado e não
no poder coercitivo.
3.36
A Conferência de Lambeth de bispos reuniu-se pela primeira vez em 1867. Ela
surgiu da preocupação missionária das Províncias, especialmente de bispos do
Canadá, porém os primeiros movimentos para estabelecer um encontro de todos os
bispos da Comunhão Anglicana não avançaram sem oposição. O que foi dito a
respeito da identidade e papel da primeira Conferência de Lambeth em 1867 foi
cauteloso:
Nunca foi considerado que deveríamos assumir as
funções de um sínodo geral de todas as Igrejas em completa comunhão com a
Igreja da Inglaterra, e tomar sobre nós mesmos o encargo de promulgar cânones
que (deveriam ser impostos sobre àqueles representados). Nós simplesmente
propomos discutir questões de interesse prático e pronunciar o que julgamos
adequado em resoluções que possam servir como guias seguros (Conferências de
Lambeth 1867-1930, SPCK [1948], página 9).
3.37
O papel consultivo em vez de legislativo da Conferência foi reiterado
claramente em 1920:
A Conferência de Lambeth não reivindica o exercício
dos poderes de controle. Ela representa o princípio decididamente mais
espiritual e mais Cristão de fidelidade à comunhão. As Igrejas representadas na
Conferência são de fato independentes, porém com a liberdade Cristã que
reconhece as restrições da verdade e amor. Eles não são livres para ignorar a comunhão
… a Conferência é uma comunhão no Espírito (Conferência de Lambeth 1920, SPCK
(1920), Carta Evangélica, página 14).
3.38
Um equilíbrio é mantido entre negar qualquer poder de aquiescência ou controle
enquanto defende a necessidade de fidelidade à fraternidade expressada em
concordância imposta em virtude de pertencer a Comunhão. Nenhuma parte deveria
agir sem levar em consideração os outros.
3.39
Em 1958, a Conferência Lambeth reconheceu a necessidade de um diretor executivo
que serviria não só ao Corpo Consultivo de Lambeth mas também ao Conselho
Consultivo de Estratégia Missionária. Foi por causa dos incansáveis esforços do
Reverendíssimo Bispo Stephen F. Bayne Jr. que a comunicação dentro da Comunhão
foi fortalecida e formada uma nova visão de interdependência e responsabilidade
mútua no Anglicanismo. A partir deste trabalho, e o de seu sucessor, Arcebispo
Ralph Dean, veio a visão de um Conselho Consultivo.
3.40
O Conselho Consultivo Anglicano (ACC) foi estabelecido por uma resolução da
Conferência de Lambeth de 1968. A Conferência reconheceu que havia uma
necessidade de maior contato entre as Igrejas da Comunhão Anglicana do que
aquele oferecido pela Conferência de Lambeth a cada dez anos, reunindo bispos,
presbíteros e leigos, sob a presidência do Arcebispo de Cantuária, para
trabalhar em interesses comuns. O Conselho reuniu-se pela primeira vez em
Limuru, Quênia, em 1971.
3.41
A Resolução 69 da Conferência de Lambeth de 1968 designou 8 áreas de ministério
que pertencem ao Conselho Consultivo Anglicano:
1.
Compartilhar informações sobre
progressos em uma ou mais províncias com as outras partes da Comunhão e servir
quando necessário como um instrumento de ação comum.
2.
Assessorar relacionamentos
inter-Anglicanos, provinciais e diocesanos, incluindo a divisão das províncias,
a informação de novas províncias e conselhos regionais e os problemas de
dioceses extra-provincial.
3.
Desenvolver, tanto quanto possível,
políticas Anglicanas harmônicas na missão mundial da Igreja e encorajar as
Igrejas nacionais e regionais a comprometer-se uma com as outras no
desenvolvimento e implementação de tais políticas, compartilhando seus recursos
de pessoal, financeiro e experiência, para maior benefício de todos.
4.
Manter perante as Igrejas
nacionais e regionais a importância da mais ampla colaboração Anglicana com
outras Igrejas Cristãs.
5.
Encorajar e guiar a participação
Anglicana no movimento ecumênico e organizações ecumênicas; cooperar com o
Conselho Mundial de Igrejas e organismos de confissões mundiais em nome da
Igreja Anglicana, e tomar as providências para a condução de conversações
pan-Anglicanas com a Igreja Católica Romana, a Igreja Ortodoxa e outras
Igrejas.
6.
Assessorar em questões levantadas
fora das negociações ou conversações de união da Igreja nacional ou regional e
em subseqüentes relações entre Igrejas unidas.
7.
Assessorar em problemas de
comunicação inter-Anglicana e ajudar na disseminação de informação Anglicana e
ecumênica.
8.
Estar atento às necessidades que
possam surgir para estudo adicional e, quando necessário, promover investigação
e pesquisa.
3.42
O Conselho Consultivo Anglicano reúne-se a cada três anos e seu Comitê
Permanente reúne-se anualmente. Sua constituição e funções foram claramente
especificadas e acordadas pelas Províncias, e foi incorporada como uma entidade
legal na Comunhão. Em 1988, os membros do ACC foram convidados a participar,
sem voto, na Conferência de Lambeth. Também foram convidados para Lambeth 1998.
3.43
No entanto, seu objetivo mais relevante, como a Conferência de Lambeth, é
estabelecer uma comunhão de escuta mútua, interdependência e responsabilidade
para servir a unidade e interdependência em missão da Comunhão Anglicana. A
escuta mútua é exigida quando membros de várias partes da Comunhão compartilham
a riqueza de suas experiências, o que também ajuda a formar a mentalidade da
Comunhão e é uma lembrança da rica diversidade de dádivas que Deus nos deu. O
compartilhar de relatos intensifica e aprofunda a experiência de
interdependência da Comunhão em todos os níveis.
3.44
Importante para estes processos são os representantes que são capazes não
apenas de trazer consigo as preocupações e relatos de suas Províncias mas
também conduzem os procedimentos do conselho para suas comunidades, nos níveis
Provincial, nacional e diocesano. Somente este constante intercâmbio fornecerá
a base na qual Igrejas membro são capazes de desenvolver e manter relações
constantes e completa comunhão com suas irmãs e irmãos ao redor do mundo. Cada
Igreja Provincial tem uma responsabilidade em ajudar seus representantes a
cumprir esta tarefa.
3.45
A reunião de bispos, presbíteros e leigos nos encontros do Conselho Consultivo
Anglicano desde Quênia 1971 proporciona uma oportunidade para as opiniões e
experiências da Comunhão serem compartilhadas.
3.46
A Conferência de Lambeth de 1988 aprovou uma moção de que o Arcebispo de Cantuária
convoque um Encontro dos Primazes regularmente. Nesta Conferência O Arcebispo
Coggan disse:
” … Estou começando a acreditar que o caminho a seguir
nos próximos anos - e pode ser um processo demorado - aparecerá em duas linhas:
primeiro, fazer reuniões com os Primazes da Comunhão com relativa freqüência,
para meditação, oração e consulta profunda. Tais encontros tem ocorrido, porém
de uma forma bastante informal e rara. Acredito que eles devem acontecer tão
freqüentemente quanto possível, talvez a cada dois anos. Porém se esta reunião agora
em uma base razoavelmente regular tem que ser proveitosa, aqueles primazes
deveriam vir para tais encontros bem informados, com um conhecimento dos
desígnios e desejos de seus irmãos os quais eles representam. Dessa forma, eles
seriam canais através dos quais a voz das Igrejas membro seriam ouvidas, e um
intercâmbio real de desígnios e desejos e coração aconteceriam. Esta é a
primeira coisa.
A segunda linha, acredito, na qual possamos fazer
alguns progressos seria entender que o grupo de Primazes, a medida que eles se
reúnem, deveria estar em contato muito próximo e íntimo com o ACC."
3.47
As minutas do Encontro dos Primazes de 1979 comentam que:
O papel de um encontro de Primazes não pode ser, e não
foi desejado como um sínodo superior … Mais exatamente, foi um ambiente de
troca de idéias e experiências através de livre expressão, cujos frutos os
Primazes deveriam transmitir para suas Igrejas.
3.48
Desde então, encontros de Primazes tem sido ocasiões para debates de questões
individuais e da Província no contexto de eucaristia, oração e estudo, no qual
os primazes atingiram, a despeito da constante mudança de membros do grupo, um
senso profundo de fraternidade que tem nutrido a unidade da Comunhão. Em um
encontro de Primazes em Newcastle, Irlanda do Norte, em 1991, os Primazes
consideraram que a importância primária deste encontro é a construção e
manutenção de relacionamentos individuais:
(
a ) como um sinal da unidade e universalidade da Igreja;
(
b ) para destacar questões importantes;
(
c ) para apoio e conselho mútuos.
3.49
Os Primazes também expressaram a opinião que parece não haver nenhuma questão
que seja de reserva exclusiva só dos Primazes; todas as questões, doutrinais,
eclesiais e morais, são de interesse de toda comunidade batizada.
3.50
O que ainda merece séria consideração é a Resolução 18, Parágrafo 2 (a) da
Conferência de Lambeth 1988:
Esta conferência insiste que seja encorajado o papel
colegiado progressivo para o Encontro de Primazes, sob a presidência do
Arcebispo de Cantuária, de maneira que o encontro de Primazes seja capaz de
exercitar uma maior responsabilidade no oferecimento de orientação em questões
de doutrina, moral e pastoral.
3.51
O episcopado é o instrumento primário da unidade Anglicana, mas episcopé é exercido
individualmente, colegialmente e comunalmente. A emergência da Conferência de
Lambeth e mais recentemente, do Encontro de Primazes e do Conselho Consultivo
Anglicano, juntamente com a primazia do Arcebispo de Cantuária, tornou-se uma
maneira eficiente de manter as Províncias em contato uma com as outras e de
unir a Comunhão Anglicana. Excluindo o episcopado, estes instrumentos não foram
dados desde o princípio, mas foram gradualmente desenvolvidos e estão ainda em
desenvolvimento. Os instrumentos, ao mesmo tempo que não possuem nenhuma
autoridade legislativa, proporcionam meios de consulta e vão além de ajudar a
formar uma mentalidade ampla na Comunhão em questões que afetam toda a Comunhão.
Nestes desenvolvimentos vemos a natureza conciliar do Anglicanismo moderno que
é um de seus aspectos menos reconhecidos ainda que mais característico. No
entanto, as Províncias permanecem autônomas. Elas são governadas e reguladas
pelos sínodos que reconhecem a autoridade dos bispos de forma crucial e
distinta, mas que também inclui representação do clero ordenado e do laicato.
3.52
Esta rede de estruturas, complexa e ainda em evolução dentro do Anglicanismo,
desenvolveu-se e serve para manter os Anglicanos em uma vida de pertença mútua,
uma vida de relacionamento. Estas estruturas são formais e informais e
relacionam-se mutuamente e afetam umas as outras de formas sutis. Elas envolvem
relacionamentos individuais, colegiais e comunais nos níveis paroquial,
diocesano, regional e internacional. Cada um contribui na direção de uma teia
de interdependência e serve para prevenir-se contra o isolamento.
3.53
Esta complexa rede de estruturas dá expressão ao laço fundamental da existência
Anglicana que é aquela unidade dada na vida de Deus, Pai, Filho e Espírito
Santo. Esta vida de divina comunhão torna-se visível de uma maneira
característica dentro da vida ordenada da Comunhão Anglicana. A combinação de
obediência às Escrituras, tradição e razão, a vida vivida dentro das dádivas da
Escrituras, credos, sacramentos e ministério ordenado, o inter-relacionamento
essencial de leigos e ordenados e a vida estruturada conciliar, contribuem cada
um à sua maneira peculiar para uma vida de interdependência e pertença mútua. A
vida da Comunhão é dinâmica a medida que a fraternidade procura responder às
novas percepções, desafios e ameaças.
3.54
No final da década, uma pergunta que cabe para os Anglicanos é se seus laços de
interdependência são suficientemente fortes para mantê-los unidos abrangendo
tensão e conflito enquanto se procuram respostas para problemas aparentemente
difíceis de se tratar. Em especial, o desafio para estruturas mais eficazes de
comunhão em um nível mundial, precisarão ser encaradas na Conferência de
Lambeth de 1998 com vistas ao fortalecimento da Comunhão Anglicana e sua
unidade no próximo milênio. Uma pergunta adicional refere-se à comunidade
ecumênica mais ampla. Existe uma necessidade de uma primazia universal exercida
colegialmente e respeitando o papel de leigos para a tomada de decisões dentro
da Igreja? Esta questão foi dirigida a Comissão Internacional Católica
Romana-Anglicana (ARCIC) pela Conferência de Lambeth 1988 e ela também foi
levantada pelo convite do Bispo de Roma na Ut Unum Sint.
|
Capítulo
4
Níveis
de Comunhão -
Complementaridade
e Interdependência
|
4.1
As Igrejas da Comunhão Anglicana fazem parte da Igreja Una, Santa, Católica e
Apostólica. Isto é, elas entendem a si mesmas como uma parte integral do
mistério da obra de reconciliação de Deus e uma personificação da presença de
Deus no mundo. A tarefa e objetivos da Igreja são dados por comissão divina. A
Igreja é mandada a ir a todas as nações e fazer discípulos do Senhor (Mt
28:19f). Seus seguidores são enviados ao mundo por Cristo, como Ele foi enviado
pelo Pai ao mundo (Jo 17). Deus incumbiu os ministros da Igreja da tarefa de
ser embaixadores, e faz um apelo pela reconciliação através deles (2 Co
5:18ff). Fundamentalmente, portanto, a Igreja é destinada à missão, por
comissão.
4.2
A medida que a Igreja refletiu sobre a natureza desta missão, ela formulou
quatro "marcas" ou "atributos" clássicos os quais devem
caracterizar sua existência em todos os tempos e em todos os lugares. Estes,
ela confessa nas palavras do Credo Niceno. Deve ser una, como o Corpo de
Cristo, para proclamar e encarnar a reconciliação de todas as coisas em Cristo.
Deve ser santa, para ter sobre si as marcas da santificadora presença do
Espírito Santo; deve ser católica, isto é, ser como Cristo foi, para todas as
pessoas, em todos os tempos, em todos os lugares; e deve ser apostólica para
atestar corajosa e incessantemente o evangelho autêntico e libertador de
Cristo, conforme ensinado pelos apóstolos.
4.3
Juntamente com estas marcas está o pressuposto de que a Igreja deve ser uma
comunidade receptiva e de aprendizado. Ela não manifestará nenhum destes
atributos a menos que os Cristãos sejam encorajados a, em conjunto, "ir a
escola" com Cristo, para serem alimentados pelo ensino e pelos
sacramentos, e a crescer à semelhança Dele (Ef 4:11-16). Desse modo, a Igreja é
uma escola na qual o dom do ensino é reconhecido, mas na qual todos os
professores são ao mesmo tempo aprendizes, desfrutando a reciprocidade do
encorajamento e da correção. Isto permite à Igreja ser uma comunidade de ensino
não apenas em função de si mesma mas em função de sua missão no mundo.
4.4
Apesar dos objetivos da Igreja terem sido dados a ela, a Igreja, contudo, tem
continuamente formulado e reformulado seus objetivos específicos a fim de que
estes sejam coerentes com as metas fundamentais, e ao mesmo tempo apropriados e
relevantes às condições dadas em cada lugar e momento particular. O evangelho
deve ser proclamado como algo novo a cada geração. Novos desafios e
oportunidades constantemente surgem para serem enfrentadas; novas ameaças tem
que ser combatidas.
I.
Os Níveis da Vida da Igreja
4.5
Isto levanta uma questão de onde e em que níveis as decisões são tomadas.
Caracteristicamente, questões surgem na Comunhão Anglicana em um determinado
lugar, em uma determinada época. A fim de responder apropriada e efetivamente,
a Igreja necessita ter clareza em admitir que há uma diversidade de níveis nos
quais a missão da Igreja, dada por Deus, é posta em prática. A palavra
"nível" é usada neste contexto de uma forma neutra; o mais local não
é "inferior" num sentido pejorativo, nem o mais internacional é
"superior" e por esta razão mais importante. Cada nível tem sua
própria integridade e suas próprias exigências. Algumas questões dizem respeito
a uma simples paróquia; algumas relacionam-se com uma diocese; algumas seriam
apropriadamente discutidas por uma assembléia nacional ou Provincial; umas
poucas seriam melhor abordadas em um nível regional ou internacional, e algumas
outras são questões para toda a Comunhão Anglicana, como uma parte da Igreja
universal.
4.6
Não existe uma maneira simples de separar níveis ou de distribuir o exame de
questões específicas a níveis determinados sem controvérsia. Uma questão
étnica, por exemplo, pode ser divisória em um nível paroquial, e ser relevante
em todo estágio intermediário do nível internacional. Nenhuma diretriz pode ser
evocada para determinar onde reside a responsabilidade por uma decisão.
4.7
O caráter da fé Cristã desde os primeiros dias deu a ela um profundo
investimento na qualidade dos relacionamentos pessoais, face a face. Os
cristãos são chamados a encarnar em sua vida diária a reconciliação de Deus de
todas as coisas em Cristo, vivendo renovadamente na luz da justiça e perdão de
Deus. É através do testemunho pessoal dos Cristãos sobre a realidade desta
nova existência que torna visível o caráter atrativo do evangelho. E os dons do
Espírito Santo, que são variados para pessoas diferentes, são concedidos
adequadamente, de tal forma que, usados em conjunto, em humildade e amor e em
atenção aos interesses uns dos outros, eles possam contribuir para a edificação
do corpo inteiro.
II.
O Princípio de
Complementaridade
4.8
O princípio de "complementaridade" foi formulado para expressar este
investimento no local e face a face. Adequadamente usado, a complementaridade
significa que "uma autoridade central deveria ter uma função complementar,
desempenhando apenas aquelas tarefas que não pudessem ser efetivamente
realizadas em um nível mais imediato ou local" (Dicionário de Inglês
Oxford).
4.9
Complementaridade pode ser apropriadamente aplicada à vida da Igreja a fim de
resistir a tentação do centralismo. Porém, na vida da Igreja, o nível local
nunca foi simplesmente entendido como sendo autônomo. Uma vez que a obra de
Cristo foi em si mesma a reconciliação da humanidade, há evidência desde os
primeiros dias das igrejas da preocupação da unidade para com as comunidades,
tanto em seus relacionamentos internos quanto nos seus inter-relacionamentos.
São Paulo, por exemplo, escreve da sua ansiedade pela continuidade da pregação
e do ensino do autêntico evangelho apostólico, e pela eficácia do testemunho
unificado da Igreja acerca do evangelho da reconciliação. A medida que a Igreja
cresceu, foi tomando o cuidado de preservar a continuidade de seu testemunho
através dos tempos e sua coerência e eficácia em diferentes lugares.
4.10
É importante esclarecer os princípios que deveriam nortear a relação entre os
diferentes níveis na e da Igreja. A clareza nesta questão favorece parcerias
criativas, seguras e transparentes no Corpo de Cristo. Toda autoridade
"superior" tem que encorajar o livre uso dos dons de Deus em níveis
"inferiores". Deve haver clareza naquilo que deve ser observado e
realizado naquele nível, e também sobre os limites de sua competência. Todo o
espaço possível deveria ser dado a iniciativa e responsabilidade pessoais. Por
exemplo, no relacionamento entre um bispo e um pároco e sua congregação,
existe, inicialmente, uma concessão de responsabilidade a este último para a
tarefa de adoração, testemunho e serviço dentro de suas limites geográficos ou
área de influência imediata. Ao pároco e a paróquia serão dados um conjunto de
tarefas as quais eles são obrigados a desempenhar. Estas serão poucas em número
e de caráter geral. Os limites de sua autoridade e responsabilidade também
serão explicados ao pároco e a paróquia. Estes refletirão essencialmente
acordos feitos previamente pelos sínodos da igreja, e expressos em cânones e
outras formas. Eles serão cumpridos por todas as pessoas até que sejam
alterados e/ou revistos pelos processos em instâncias apropriadas. Sujeitos a
tais limites, o pároco e a paróquia serão encorajados a usar todos seus dons,
energia e compromisso a fim de permitir que o evangelho progrida nessa área. O
bispo e o pároco manterão o mais alto nível de comunicação possível de tal
forma que encorajamento, conselho e, quando necessário, correção, possam ser
dados, bem como novas tarefas de acordo com as necessidades.
4.11
Anglicanos podem adequadamente afirmar que a observação de diferentes níveis e
a concessão de considerável liberdade até o nível mais inferior possível tem
sido uma característica de sua constituição. No Anglicanismo atual decisões
canonicamente vinculadas somente podem ser tomadas em nível Provincial ou, em
algumas Províncias, em nível diocesano.
4.12
A tomada de decisões pelas Províncias em questões próprias provou ser uma fonte
de fortalecimento para a Comunhão Anglicana. Desse modo, as Províncias tomam
para si as responsabilidades do que fazem de maneira clara e convicta.
4.13
No entanto, quando as decisões são tomadas pelas Províncias em questões que
mexem com a vida de toda a Comunhão sem consulta, elas podem causar tensões a
medida que outras Províncias ou outras tradições Cristãs rejeitam o que foi
decidido em outro lugar. A Comissão Eames enfatizou a necessidade de haver uma
consulta anterior à ação, e de caridade e paciência em tal situação, insistindo
que o discernimento e a "recepção é um processo contínuo na vida da
Igreja, que não deve ser apressado" (Eames III, Recepção 43-4).
4.14
A proclamação do evangelho a toda humanidade deve encarnar sua coerência
universal. Deve-se tomar cuidado para evitar que a Província se torne
prisioneira da sua cultura. Os efeitos corrosivos de determinados ambientes
são, com freqüência, imperceptíveis para aqueles que estão imersos neles. O
princípio de um relacionamento entre Províncias e a Comunhão mundial enunciado
aqui também se aplica a outros níveis. A cada interface o objetivo é libertar o
povo de Deus a fim de usar os dons dados por Ele com responsabilidade e
cooperação, de forma compatível com o evangelho e sua efetiva proclamação em
palavra e ação.
4.15
O movimento para ordenar mulheres ao sacerdócio e ao episcopado fornece um
exemplo recente do processo pelo qual os Anglicanos lutaram juntos para formar
uma opinião em uma questão que afeta o ministério e, conseqüentemente, a
unidade da Comunhão. É uma história que salienta algumas das questões
emergentes que dizem respeito tanto a estrutura da interdependência Anglicana e
aos processos pelos quais tomamos decisões em conjunto.
4.16
A história ilustra, por razões históricas particulares, como decisões
vinculadas somente podem ser tomadas em nível de uma Província ou em alguns
lugares em nível de uma diocese. Entretanto, isso também revela o esforço em
honrar a interdependência dos Anglicanos através de uma referência aos órgãos
internacionais de consulta. Quando, na década de 60, a questão da ordenação de
mulheres tornou-se urgente para a missão da Igreja em Hong Kong, Hong Kong
primeiro levou o assunto a Conferência de Lambeth. A Conferência solicitou que
toda igreja regional estudasse a questão. A consulta foi iniciada desta forma.
Porém, a despeito de uma tentativa em ouvir uns aos outros, na realidade
nenhuma resposta escrita foi recebida até o momento que os representantes
Provinciais se reuniram para a primeira reunião do Conselho Consultivo
Anglicano. O conselho adotou a seguinte resolução:
Em resposta ao pedido do Conselho da Igreja do
Sudoeste da Ásia, este Conselho recomenda ao Bispo de Hong Kong, agindo com a
aprovação de seu Sínodo, e qualquer bispo da Comunhão Anglicana agindo com a
aprovação de sua Província, que, se ele decidir ordenar mulheres ao sacerdócio,
sua ação será aceitável a este Conselho; e que este Conselho usará de bons
expedientes a fim de encorajar todas as Províncias da Comunhão Anglicana a
continuar em comunhão com estas dioceses (Resolução 28 (b) O Tempo é Agora
Primeiro Encontro do Conselho Consultivo Anglicano Limuru, Quênia, 23 de
fevereiro - 5 de março, 1971. Londres : SPCK [1971], página 39).
4.17
De forma semelhante, em 1985, após a Convenção Geral da ECUSA ter expressado
sua intenção de não negar consentimento à eleição de um bispo baseada no gênero
(feminino ou masculino), ela também buscou o aconselhamento do recém criado
Encontro de Primazes. Através de seu grupo de trabalho, os primazes buscam o
conselho das Províncias. Foi aquela reflexão da Comunhão mundial de 17
províncias que deu origem a resolução 1 de Lambeth 1988:
Que cada província deveria respeitar a decisão e
atitudes de outras províncias … sem que tal respeito indique a aceitação dos
princípios envolvidos, mantendo-se o mais alto grau de comunhão com as
províncias que divergem.
4.18
De uma maneira muito semelhante, como uma decisão jurídica tomada em nível
Provincial tem que ser recebida, então a dita "opinião da Comunhão",
expressa nas resoluções das Conferências de Lambeth, ainda precisa ser
submetida a um processo de "recepção aberta" na vida da Comunhão
Anglicana e de toda Igreja. Muita ênfase foi dada pela Comissão Eames sobre a
necessidade de um processo aberto de recepção decorrente da Resolução de
Lambeth 1988 (ver Comissão Eames, páginas 54-5).
4.19
Tem havido uma crescente percepção que certas questões que surgem afetam a
unidade da Igreja universal. Questões de fé, os sacramentos, as ordens do
ministério, as mudanças básicas nos relacionamentos com outra Comunhão Mundial
e as questões éticas têm implicações para a vida em comunhão. Estas questões
necessitam de uma compreensão da Comunhão mundial se desejamos preservar uma
existência de interdependência.
4.20
Questões que envolvem a unidade de toda a Comunhão raramente podem ser
decididas sem debate e, portanto, devem sempre ser trazidas à vida de oração. A
Igreja precisa ser tolerante e suficientemente aberta para conduzir seus
debates com caridade e atenção à sabedoria e direção do Espírito Santo. Deve-se
tomar o cuidado de assegurar que questões complexas sejam consideradas de
maneira justa e adequada. Culturas diferentes possuem diferentes tradições em
matéria de consulta e tomada de decisões.
4.21
Teólogos Anglicanos, tais como Richard Hooker, falaram da necessidade de
consenso, sem o qual o mero exercício de autoridade pode levar à tirania. Mas
não existe uma maneira de estabelecer o que constitui consenso. Onde há
disparidade e diversidade de tradições, há a necessidade de grande cuidado com
a comunicação. Tão antigo quanto 1888, o Quadrilátero de Chicago Lambeth
afirmou a adequação de diferentes estilos de autoridade episcopal, apropriado a
diferentes culturas: "O Episcopado Histórico, localmente adaptado nos
métodos de sua administração às diversas necessidades das nações e povos
chamados por Deus à Unidade de Sua Igreja" (Relatório sobre Reunião de
Casa, Artigo 4, páginas 159f).
III.
A Igreja Individual e a Igreja
Católica
4.22
A vida e missão da Igreja atinge o seu máximo autenticidade e vibração em um
determinado contexto, uma região ou área geograficamente coesa habitada por um
povo, tribo ou grupo, com suas próprias tradições e costumes. "Local"
pode significar diferentes coisas em diferentes lugares. Uma única paróquia
pode ser uma localidade, e tal lugar pode ser tão pequeno quanto uma aldeia, ou
tão grande quanto uma cidade. Uma região geograficamente coesa pode ser uma entidade
local ou uma área habitada por um povo, tribo ou grupo, com suas próprias
tradições e costumes. Estilos e modos de viver, sabedoria recebida, rituais e
costumes sociais, estruturas de clã e inter-relacionamentos podem contribuir
muito para um senso de individualidade. A Igreja é eficaz quando está enraizada
em um local, desafiando as injustiças, restaurando relacionamentos,
permanecendo com os fragilizados e marginalizados e abrindo-se para novas
possibilidades de serviço, respeito e amor mútuos. Em tal contexto a palavra
"igreja" significa é uma rica e multi-facetada realidade, encarnando
a presença salvadora e reconciliadora de Deus em um determinado contexto. É um
termo ricamente referente, culturalmente ressonante e encerrado em um sistema
simbólico estabelecido ou rede de significados.
4.23
É importante que a Igreja em sua “personificação” não seja apenas a
"tradução" de um ideal abstrato para um veículo meramente temporário
ou transitório. A vida da Igreja, desenvolvida individualmente, demonstraria
respeito pela história da Igreja dos séculos passados, incluindo os primeiros
séculos e as comunidades bíblicas, percebendo tanto as suas falhas quanto a sua
fidelidade. Estaria pronta, também, para ser ajudada e desafiada pela Igreja contemporânea
em outros lugares, e para usar a experiência de outros cristãos como uma forma
de distinguir a verdade entre as ambigüidades da tradição e cultura local.
4.24
Dependente de tais eclesiologias encarnadas é a expressão de uma doutrina
católica da Igreja, a qual tenta expressar o que é, ou deveria ser, verdadeiro
da Igreja em todos os lugares. Nossa teologia trinitária (Capítulo 2) fornece a
base de tal eclesiologia. Não é por acaso que está enraizada não apenas nas
doutrinas e experiências das igrejas da Comunhão Anglicana, mas nas convicções
da vasta maioria dos cristãos que já viveram e do testemunho
público de suas igrejas. De forma alguma esta eclesiologia é pouco
experimentada ou inconsistente. Como certos tipos de metais modernos altamente
sofisticados, ela é tênue e excepcionalmente forte, provado em grande número de
desgastes. É um recurso vital e recorrer a ela é demonstrar um respeito
completamente adequado pela Igreja católica. Falamos também das
"marcas" e "atributos" da Igreja (§ 4.2) como determinante
de seus objetivos gerais. Estes são verdadeiros, porém igualmente não
específicos. Nem previnem o surgimento de disputas no que diz respeito as suas
exatas interpretações. O que, por exemplo, significa ser uma Igreja
"santa" no contexto de uma cultura hedonística? O próprio São Paulo
teve que trabalhar duro para interpretar a responsabilidade cristã em relação
às ramificações da idolatria em uma sociedade pagã.
4.25
Em todos os tempos a reflexão teológica e a praxis da igreja local devem ser
coerente com a verdade do Evangelho que pertence à Igreja universal. A doutrina
universal da Igreja é importante especialmente quando práticas ou teorias
específicas localmente desenvolvidas acarretam em disputas. Em alguns casos,
pode ser possível e necessário para a Igreja universal declarar com firmeza que
uma prática ou teoria local específica é incompatível com a fé cristã. Isto foi
afirmado, por exemplo, aquelas Igrejas na África do Sul que praticaram e
justificaram discriminação racial na eucaristia. De forma similar, se uma
igreja fosse desenvolver uma fórmula de batismo diferente daquela proferida nas
Escrituras e usada por todo o mundo, uma situação semelhante surgiria. O
Quadrilátero de Chicago Lambeth é uma lista de normas e práticas que devem
caracterizar a Igreja em todos os tempos e em todos os lugares. No entanto, não
se trata de uma eclesiologia completa, nem está livre de ambigüidades
interpretativas.
4.26
A eclesiologia Anglicana Elizabetana, por exemplo, como foi desenvolvida por
Richard Hooker (c. 1544-1600) ou Richard Field (1561-1616), é uma eclesiologia
localmente encarnada para um momento e lugar determinados. Não é uma
"tradução" de uma eclesiologia universal, a qual pode, então, ser
(como se fosse) "retraduzida" em diferentes momentos e lugares. Ela
é, como eclesiologias devem ser, uma tentativa sincera de encarnar a presença
salvadora de Deus em uma dada cultura. É uma rendição à eclesiologia bíblica, a
qual é, ela própria, individual e local. Os Anglicanos Elizabetanos, no
entanto, reconheceram a autoridade do credo Niceno e procuraram mostrar como a
Igreja da Inglaterra pertencia à Igreja una, santa, católica e apostólica. As
igrejas contemporâneas da Comunhão Anglicana também precisam de eclesiologias
localmente encarnadas, e não pálidas imitações do Anglicanismo Elizabetano, mas
personificações completas, ricas e relevantes da presença salvadora de Deus em
uma localidade. Nem elas serão meras "traduções" de uma eclesiologia
universal, porém uma procura confiante e sincera do caminho de Deus para a
Igreja na transformação dos relacionamentos com tradições, estruturas e
instituições específicas.
4.27
Porém nenhuma personificação local da Igreja é simplesmente autônoma e é
evidente, a partir da história da Igreja, que igrejas locais podem cometer
erros. Um cuidado para com a reconciliação e a unidade está implícito na
catolicidade da obra única e expiatória de Jesus. A apostolicidade de uma
determinada igreja é medida por sua consonância com os elementos vivos da
sucessão e unidade apostólicas: batismo e eucaristia, os credos Niceno e
Apostólico, o ministério ordenado e o cânone das Escrituras. Estes elementos
vivos de sucessão apostólica servem à transmissão autêntica do evangelho e
servem para manter os vários níveis da Igreja em uma comunhão de verdade e
vida.
|
Capítulo
5
Koinonia:
Objetivo e Princípios
para
Desenvolver Estruturas
|
5.1
O propósito de todas as estruturas e processos da Igreja é para servir a
koinonia, a vida trinitária de Deus na Igreja, e ajudar todos os batizados a seguir
e viver o resto de seus dias a missão de Cristo e o ministério no mundo.
Através do batismo, cada pessoa é chamada a viver a nova vida em Cristo no
poder do Espírito Santo e é sagrado com graça a fazê-lo em comunhão com todos
os membros do mesmo Corpo de Cristo.
5.2
Como vimos na Comunhão Anglicana de hoje, as estruturas de unidade e comunhão
em um nível mundial estão ainda em desenvolvimento. Este desenvolvimento
necessita agora ser inspirado por um entendimento renovado da Igreja como
koinonia; um reconhecimento da dádiva de Deus a todos os povos de Deus de um
ministério de episcopé, exercido de formas individual, colegial e comunal
dentro e por todo o grupo de batizados; por princípios de complementaridade,
responsabilidade e interdependência, e por um entendimento do Espírito guiado
por processos de discernimento e recepção.
I. A Comunhão da Trindade
5.3
No capítulo dois exploramos uma compreensão da Igreja como comunhão,
participando e chamando a manifestar-se em sua própria existência, a existência
de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Aqueles que são batizados, através do
poder do Espírito Santo, morrem com Cristo e nascem para nova vida nele e são
reunidos a todos os batizados na comunhão da própria existência e amor de Deus.
Através do batismo e da participação na Mesa do Senhor, os batizados são
chamados a uma existência de unidade e interdependência e a usar todos seus
diversos carismas confiados na realização da missão de Deus no mundo. As
estruturas da Igreja, em todos os níveis, existem para servir esta vocação da
Igreja. Da maneira como são ordenadas bem como se inter-relacionam e funcionam,
elas devem refletir e encarnar a realidade fundamental da existência da Igreja
- sua comunhão na vida e amor de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.
5.4
Isto significa que a vida individual e relacional da Igreja como comunhão está
sempre antes da estrutural. Mas, sem capacitar estruturas, a existência da
Igreja é enfraquecida e o individual e relacional ficam sem apoio. Estruturas
corretas e correta ordenação fornecem canais pelos quais através do poder do
Espírito Santo, a vontade de Cristo é discernida, a conduta correta da Igreja
encorajada e o dom de muitos é utilizado no serviço e missão da Igreja.
II. Episcopé, Individual,
Colegial e Comunal
5.5
O ministério de supervisão (episcopé) de interdependência, responsabilidade e
discernimento é essencial em todos os níveis da missão e ministério da Igreja,
e na busca do bem estar da Igreja, deve ser exercido em todos os níveis de
forma que seja individual, colegial e comunal. Uma autoridade de bispo nunca é
isolada da comunidade, tanto a comunidade da Igreja quanto a comunidade e
unidade de toda humanidade.
i.
Individual
5.6
O ministério da supervisão deveria ser individual porque a presença de Cristo
entre seu povo pode marcar com mais eficiência a pessoa ordenada a proclamar o
evangelho e chamar a comunidade a servir o Senhor em uma unidade de fé e testemunho. Os
bispos tem uma responsabilidade especial em manter e pôr em evidência a unidade
interna e comunhão local da Igreja. Na diocese onde eles exercem supervisão,
eles representam, focalizam e zelam pela unidade da Igreja. Os Bispos também
estabelecem relação da igreja local com a Igreja mais abrangente e da Igreja
mais ampla com a igreja local.
5.7
Bispos são chamados por Deus, na e através da comunidade de fé, para
personificar a tradição do evangelho e missão da Igreja. Como único com
responsabilidade especial para assegurar que a proclamação da palavra e da
celebração dos sacramentos seja fiel ao Evangelho e à tradição da Igreja, o
bispo tem responsabilidades específicas pelo chamamento de toda humanidade na
unidade da Igreja. Esta responsabilidade específica é exercida em parceria com
outros bispos, clero e leigos, com membros de outras organizações eclesiais e
líderes da comunidade local. Portanto, ministério episcopal não é um ministério
autoritário acima e separado da comunidade, mas é um ministério, baseado na
graça de Deus, sempre exercido em relação à comunidade e sempre sujeito à
palavra de Deus.
5.8
Em virtude da ordenação, bispos são chamados e autorizados a representar Cristo
para a comunidade dos fiéis e para a comunidade mais abrangente. Este é o
ministério individual do episcopé. Ainda que sendo única responsabilidade do
bispo diocesano, é ao mesmo tempo sempre compartilhada com os outros. Em um
nível regional, os Primazes exercitam um ministério individual de supervisão e
no nível de toda a Comunhão o Arcebispo de Cantuária exerce o ministério
individual de episcopé.
ii.
Colegial
5.9
Bispos compartilham uma relação colegial com aqueles que encarregam-se de
servir com eles na diocese, no ministério clerical da palavra e sacramento e no
trabalho pastoral da Igreja. Bispos também compartilham colegialmente com
outros bispos da mesma Província, representando os interesses da igreja local e
da comunidade para a Igreja mais abrangente, e trazendo de volta os interesses
e decisões da Igreja mais abrangente para sua comunidade local. A Conferência
de Lambeth e o Encontro de Primazes são as mais altas expressões deste colegiado.
iii.
Comunal
5.10
Bispos exercem o seu ofício publicamente. A participação efetiva da comunidade
é necessária na descoberta da vontade de Deus, sob a liderança do Espírito. Em
seus relacionamentos comunais, os bispos encontram-se com representantes
daqueles que ocupam cargos ou aqueles que exercem responsabilidade dentro da
comunidade das igrejas locais. Isto está de acordo com o princípio de
complementaridade, mantendo o bispo em contato com os interesses e decisões que
pertencem propriamente aos níveis mais paroquiais da vida diocesana. Como
pessoas representativas, os bispos tem um dever moral de refletir os interesses
de toda a comunidade, especialmente daqueles a quem a sociedade marginaliza.
5.11
A expressão prática do ministério individual, colegial e comunal do bispo deve
ser vista em governo sinodal. Pode-se dizer que as igrejas da Comunhão
Anglicana são episcopalmente lideradas e governadas sinodalmente. A tarefa dos
sínodos propriamente dita é conselho, deliberação e legislação. Liderança
episcopal é, no entanto, sempre deve estar relacionado com toda a Igreja, tanto
local como universal.
5.12
Existe um lugar apropriado para a expressão comunitária da existência e
ministério da Igreja em outros níveis além do diocesano. Cada Província tem seu
encontro sinodal comunitário. Atualmente no nível mundial, o Conselho
Consultivo Anglicano ( ACC ) personifica a dimensão comunitária da existência
da igreja, lembrando à Comunhão sua vocação ao episcopado, presbiterato,
diaconato e laicato, compartilhada na descoberta da vontade de Jesus Cristo. No
nível mundial, no entanto, os encontros do Conselho Consultivo Anglicano ( ACC
) são consultivos e não de caráter legislativo.
5.13
Primazia e colegialidade são elementos complementares dentro do exercício de
episcopé. Um não pode ser exercido sem referência ao outro em um crítico e
criativo equilíbrio. Além disso, ambos devem, de cada vez, ser abertos à
comunidade cristã de forma que seja tanto transparente e responsável, e na
tomada de decisões da Igreja, apoiem um processo de recepção no qual a crítica,
afirmação e rejeição são possíveis.
5.14
O papel da primazia é favorecer a comunicação pela ajuda aos bispos em sua
tarefa de liderança apostólica tanto na sua igreja local como na Igreja
universal. O papel específico do Primaz na episcopé é ajudar as igrejas a ouvir
uma as outras, crescer em amor e unidade, empenhar-se juntos com vistas a
plenitude da vida e testemunho cristãos. Um Primaz respeita e promove a
liberdade e espontaneidade cristãs, não procura uniformidade onde a diversidade
é legítima ou centraliza a administração em detrimento das igrejas locais.
5.15
Um Primaz exerce o ministério não em isolamento mas em associação colegial com
outros bispos. Se existe a necessidade de intervir nas questões de uma diocese
dentro da Província, o Primaz irá aconselhar-se com outros bispos, e se
possível atuará através das estruturas normais de aconselhamento e tomada de
decisões. O Primaz irá esforçar-se para nunca desviar ou usurpar a responsabilidade
digna da igreja local. ARCIC I falou do ministério de primazia desta forma:
Primazia cumpre seu objetivo ao ajudar as igrejas a
ouvirem uma as outras, crescer em amor e unidade; ela respeita e promove a
liberdade e espontaneidade cristãs; ela não procura uniformidade onde a
diversidade é legítima ou centraliza a administração em detrimento das igrejas
locais. (Relatório Final, Autoridade I, § 21).
5.16
A primazia do Arcebispo de Cantuária e o encontro de Primazes refletem, no
nível da Comunhão Anglicana, a primazia e colegialidade exercida no nível
Provincial. No entanto, há uma diferença na distância e na raridade de encontro
que acrescenta dificuldade ao processo de aconselhamento e decisão.
Discernimento, decisão e ação neste nível normalmente dependerão apenas do
consenso do encontro de Primazes ou uma parte dele e exige grande sensibilidade.
III. Complementaridade,
Responsabilidade e Interdependência
5.17
A Santa Igreja Católica está inteiramente presente em cada um de suas
personificações locais. Decisões a respeito da existência e missão da Igreja
deveriam ser feitas naquele lugar e precisam apenas ser referidas a conselhos
mais amplos se a questão ameaça a unidade e a fidelidade de ensinamentos ou
prática da Igreja universal, ou onde a igreja local encontra circunstâncias
genuinamente novas e deseja conselho sobre como reagir.
5.18
Os vários níveis da Igreja são responsáveis uns pelos outros. Isto será
revelado pela abertura de diálogo, pela atenção a particularidades de povos,
tempos e lugares, pela aceitação da interdependência em ambos os níveis
individual e coletivo e pela reverência a pluralidade e diversidade como
dádivas de Deus.
5.19
A atenção, na comunidade Cristã, é uma qualidade específica de interação entre
membros do corpo de Cristo. A atenção cristã significa decidir colocar o
entendimento de outros à frente do ser entendido. Significa ouvir e responder
às necessidades e esperanças de outros, especialmente quando estas divergem das
próprias necessidades, agenda e esperanças. Além disso, a atenção cristã
significa manter em mente estas necessidades e agendas, quando tomar as
próprias decisões e desenvolver suas próprias práticas. Tal atenção está em
consonância, dizemos, com a qualidade do amor de Deus conhecido em Cristo e compartilhado
com o Espírito Santo. Este amor divino é retratado de forma bela no Evangelho
de João, onde o Pai e Filho glorificam e afirmam a identidade um do outro. Está
espelhado, ademais, na aguda consciência e na reação piedosa de nosso Senhor à
necessidade dos outros.
5.20
As assembléias Anglicanas mundiais são consultivas e não de caráter
legislativo. Há uma questão a ser feita, qual dos dois é satisfatório, se a
Comunhão Anglicana deve ser mantida unida em momentos difíceis bem como nos
bons momentos. De fato há uma questão se a comunhão efetiva, em todos os
níveis, não requer instrumentos adequados, com as devidas salvaguardas, não
apenas para legislação mas também para supervisão. Não é a autoridade universal
uma necessidade corolária da comunhão universal? Esta é uma questão atualmente
em discussão com nossos parceiros ecumênicos. Relaciona-se não apenas com nosso
entendimento do exercício da autoridade na Comunhão Anglicana, mas também com
o tipo de unidade e comunhão que procuramos em uma Igreja visivelmente unida.
IV. Discernimento e Recepção
5.21
A fé da Igreja está sempre precisando de novas interpretações, de forma que o
Cristo vivo possa ser percebido nas vidas dos homens e mulheres contemporâneos.
Discernir a vontade de Cristo para a Igreja é a tarefa de todo povo de Deus,
com aqueles ordenados para um ministério de supervisão guiando e liderando a
comunidade. Autoridade é racional. Algumas questões são propriamente
determinadas em um nível local ou regional, outras que mexem com a unidade da
fé precisam ser determinadas na comunhão de todas as igrejas.
5.22
Quando uma questão é levantada por um processo de discernimento, tomada de
decisão e recepção de uma igreja local, todos tem sua parte a cumprir. É
responsabilidade da igreja local considerar a implicação de tomar decisões pela
Comunhão mais abrangente. Os anglicanos concordam que os Grandes Concílios
Ecumênicos dos séculos IV e V foram a mais alta autoridade conciliar. No
entanto, nenhum concílio ecumênico possui autoridade final simplesmente como
uma instituição. Mesmo com estes concílios iniciais, não houve garantia que a
orientação de um concílio era livre de erro de julgamento ou distorção da
verdade. Suas palavras foram aceitas como verdadeiras e obrigatórias, não
porque um determinado concílio afirmou, mas sim porque suas decisões foram
recebidas e reconhecidas pelos fiéis nas igrejas locais como expressando a
verdade do Evangelho. Isto não quer dizer que certos concílios da Igreja no
passado e na Comunhão Anglicana de hoje não deveriam inspirar o respeito dos
fiéis e ser tomados com toda devida seriedade na resposta e processo de
discernimento.
5.23
Os anglicanos acreditam que a Igreja universal em última análise, não falhará.
Através da liderança do Espírito Santo, a verdade é gradualmente discernida. No
entanto, o discernimento da verdade nunca é matéria inequívoca e sem
complicação. Existem sempre contratempos ao longo do caminho.
5.24
Dentro da Comunhão Anglicana, questões que tocam a comunhão de todas as igrejas
precisam ser discernidas e testadas dentro da vida de interdependência das
Províncias, através das reuniões de bispos na Conferência de Lambeth e através
do processo consultivo do Conselho Consultivo Anglicano e do Encontro de
Primazes. Além disso reside o processo de aberta recepção dentro da vida das
igrejas locais. A manutenção da comunhão não só dentro, mas também entre
igrejas, no processo de provar a verdade de uma decisão, precisa grande sensibilidade
e precisa ser encontrado espaço adequado para desacordo claramente expresso ao
testar e redefinir a verdade. No processo de discernimento e recepção,
relacionamentos precisam ser mantidos, porque apenas no companheirismo há a
oportunidade para corrigir a unilateralidade ou ignorância. Através de alguns
meios pelos quais a comunhão é expressa podemos ser levados, à necessidade de
cortesia, tolerância, respeito mútuo, oração uns pelos outros e um contínuo
desejo de saber e estar um com o outro. O processo de recepção envolve a preparação
de materiais de estudo apropriados e informativos e a preparação de ocasiões
para conversas, reunindo aqueles que estão em ambos os lados de uma questão
específica.
5.25
Em uma Cristandade dividida, não há possibilidade de tomar-se decisões em um
Concílio Geral. Todavia, neste estágio do movimento ecumênico quaisquer
decisões que afetem a fé ou a ordem da Igreja universal precisam ser postas à
prova dentro de uma fraternidade ecumênica mais ampla.
5.26
A respeito da discussão do pensamento de Cristo para a Igreja, sob a orientação
do Espírito Santo, discernimento, debate conciliar e tomada de decisão seguidas
por um processo de recepção, cada um tem um papel a cumprir. Não é por uma
questão de fraqueza que a Igreja é incapaz de tomar decisões instantaneamente
em relação a complexas questões de fé, ordem e moral que vem antes disto, mas a
maneira como ela vive no processo de discernimento, tomada de decisões e
recepção pode dar um profundo testemunho e fornecer um modelo para outras comunidades.
V. Coerência Teológica
5.27
A missão da Igreja é encarnar e proclamar o Evangelho de amor e reconciliação,
cura e liberdade de Cristo. Isto deve ser transparente não apenas nas palavras
que são faladas e na sua defesa de justiça e paz, mas também em suas estruturas
e processos visíveis. A teologia implícita nas estruturas e processos da Igreja
deve ser coerente com a teologia explícita de suas palavras.
5.28
É com os princípios que exploramos neste capítulo que nos voltamos a
reconsiderar os instrumentos de convivência Anglicana em um nível mundial e
levantar questões sobre como elas podem ser desenvolvidas sob a luz destes
princípios.
|
Capítulo
6
Os
Instrumentos Universais de Comunhão:
Estruturas
e Processos
|
6.1
Neste capítulo levantamos um número de questões sobre o desenvolvimento futuro
dos instrumentos universais de comunhão, a forma como funcionam e seu
inter-relacionamento uns com os outros. A Comissão não foi solicitada a dar
propostas específicas para os desenvolvimentos futuros. Ela simplesmente
procura fazer perguntas que os bispos, em Lambeth, necessitarão tratar se
desejam dar direção a futura interdependência e coerência da Comunhão
Anglicana.
I.
O Arcebispo de Cantuária
6.2
Em nossa seção histórica, observamos que estar em comunhão com a Sé de
Cantuária é um ingrediente importante da interdependência Anglicana; ainda que
cada uma das Províncias é autônoma. O Arcebispo de Cantuária não é um
legislador supremo nem a personificação de poder administrativo central, porém
como um pastor a serviço da unidade, oferece um ministério de serviço, cuidado
e apoio à Comunhão. A interdependência da Comunhão Anglicana torna-se mais
claramente visível quando o Arcebispo de Cantuária exerce seu ofício primacial
como um facilitador da missão, do cuidado pastoral e da cura/restauração
naquelas situações de necessidade para as quais ele é chamado. Este serviço
pastoral de unidade é exercido através de convite. Por exemplo, a pedido dos
líderes Provinciais, o Arcebispo exerceu um papel pastoral e mediação no Sudão
e em Ruanda.
6.3
O Arcebispo de Cantuária exerce seu ministério em conexão com seus colegas
Primazes. Ao considerar como responder a um pedido de ajuda por uma Província,
ele prudentemente consulta todos os recursos apropriados na região, na
Província e na diocese local. Aqui, como em qualquer lugar no exercício do
primado, complementaridade é importante. Assim também é exercício de um
episcopé no qual elementos pessoais, colegiados e comunitários são mantidos
unidos.
6.4
Juntamente com um ministério de presença e ensino, há também uma certa primazia
administrativa. Historicamente, isto encontrou sua expressão singular quando o
Arcebispo de Cantuária convoca e preside a Conferência de Lambeth, onde o
relacionamento do Arcebispo de Cantuária com a Comunhão, e os bispos uns com os
outros, é mais claramente percebido. Também é visível em sua presidência nos
encontros regulares dos Primazes, e também exercido dentro da vida do conselho
Consultivo Anglicano onde o Arcebispo de Cantuária atua como seu presidente e
como um participante ativo em seus encontros.
6.5
Contudo, é mais freqüente o elemento pastoral pessoal no exercício deste
ofício, o que se tornou a mais visível evidência do Arcebispo de Cantuária como
um instrumento de unidade. Dada a magnitude deste ministério, deve haver um
entendimento que cuidado pastoral e espiritual, além das orações da Comunhão,
deve ser colocado a disposição do Arcebispo.
6.6
A posição especial do Arcebispo de Cantuária na Comunhão levanta questões que
precisam ser trabalhadas. Existem mecanismos pelos quais tarefas possam ser
compartilhadas dentro da Fraternidade dos Primazes, sem enfraquecer o símbolo
de unidade proveniente de uma pessoa? O Arcebispo de Cantuária está
adequadamente munido de recursos como Primaz da Comunhão? Há coerência e
consulta suficientes entre o Secretariado da Comunhão Anglicana e a equipe do
Palácio de Lambeth? O papel do Arcebispo significa que a Igreja da Inglaterra
deve ser mais cautelosa em suas decisões do que outras Províncias? Um Arcebispo
de Cantuária tem que necessariamente ser um membro da Igreja da Inglaterra? O
Primaz da Comunhão Anglicana precisa ser o ocupante da Sé de Cantuária?
II.
A Conferência de Lambeth
6.7
A Conferência de Lambeth tem um papel importante no fortalecimento da unidade
da Comunhão Anglicana por expressar a colegialidade dos bispos, de uma forma
clara e concreta, em nível internacional e por simbolizar o relacionamento nos
laços de comunhão espiritual de cada uma das dioceses de onde os bispos provêm.
6.8
Embora a Conferência não seja legislativa, ela oferece a oportunidade para que
bispos oriundos de igrejas em diferentes contextos culturais, sociais e
políticos, e com diferentes agendas e problemas, vivam juntos, celebrem juntos,
participem em estudos bíblicos juntos e ouçam uns aos outros. Através destes meios
cada bispo pode compartilhar as dificuldades e alegrias das outras igrejas.
Isto significa que cada igreja na Comunhão Anglicana é uma parceira na missão e
uma parte do Corpo de Cristo. Desta forma a Conferência encarna o conceito de paulino
da Igreja como um corpo. Como Paulo escreve, "quando uma parte do corpo
sofre, o resto do corpo sofre". Cada parte do corpo é diferente, porém,
toda parte é necessária ao corpo.
6.9
A Conferência também significa a importância fundamental da comunhão face a
face para a vida saudável da Comunhão. Os encontros pessoais que são
facilitados por ela e os relacionamentos que se desenvolvem a partir deles
significam um aspecto do ministério do serviço dos bispos que trazem a
realidade de cada diocese ao todo da Comunhão, assim como o todo da Comunhão de
volta a sua própria diocese.
6.10
A Conferência de Lambeth, desse modo, ajuda a definir o papel do bispo como
aquele que representa a parte junto ao todo e o todo junto a parte, a
particularidade de cada diocese, para toda a Comunhão e a Comunhão para cada
diocese.
I.
Atenção recíproca na Conferência
de Lambeth
6.11
No contexto da Conferência de Lambeth, a atenção recíproca Cristã acarreta, em
primeiro lugar, que individualmente ou em grupos os bispos escutarão a voz de
outros bispos quando estes expressem as necessidades e esperanças da Igreja em
sua localidade. Tal respeito à opinião de outros, especialmente quando tal
respeito exige levar em consideração necessidades e agendas que não são suas.
Isto pode significar que bispos de uma parte do mundo tornem sua própria agenda
que eles não trouxeram originalmente a Lambeth. Isto pode resultar em que um
bispo ou grupo de bispos deixe a Conferência engajado em um programa completamente
novo.
6.12
Uma preocupação de Lambeth 1998 deverá ser de que forma o colegiado episcopal
está atento e acatará as percepções das mulheres bispos que estarão
participando da Conferência pela primeira vez.
6.13
A atenção recíproca cristã em Lambeth deveria significar uma atenção especial
dada aqueles bispos cuja língua materna não é inglês, e aqueles bispos que não
são oriundos de Províncias politica, cultural e economicamente poderosas na
Comunhão. A atenção recíproca torna-se distintamente cristã quando os bispos
reunidos dão ouvidos e abrem espaço para as manifestações daqueles cristãos que
raramente são ouvidas, quando o são.
6.14
Um exemplo de tal atenção recíproca cristã no passado é bispos do ocidente
observando e sendo responsivos à profunda preocupação dos bispos africanos no
que diz respeito à poligamia. Um segundo exemplo, da Conferência de Lambeth
1988, é os bispos do ocidente reconhecendo a legitimidade de um chamado de
bispos da Ásia e da África para um renovado compromisso com o evangelismo.
Todos os bispos deixaram a Conferência de Lambeth de 1988 comprometidos com uma
Década de Evangelização, que não haviam previsto antes do processo da
Conferência de Lambeth ter começado.
6.15
Aumentando as oportunidades, e ocasiões, a atenção recíproca cristã deveria ser
incentivada e protegida na Conferência de Lambeth. Isto permitirá que os bispos
reunidos em Lambeth tomem parte, sejam moldados e manifestem o zelo e a atenção
amorosa de Deus Pai como os conhecemos em Jesus Cristo através do Espírito
Santo.
II. Interdependência
na Conferência de Lambeth
6.16
O princípio de interdependência comunitária, se posto em ação na Conferência de
Lambeth, pode ser pensado a exigir sua reforma a fim de introduzir sacerdotes,
diáconos/diáconas e laicato dentro de sua estrutura. Na verdade isto foi
sugerido em 1871 antes da segunda Conferência de Lambeth, quando o bispo que
presidia a Igreja Episcopal, EUA, sugeriu que a Conferência de Lambeth deveria
ser transformada em uma "Conferência Patriarcal" de bispos de todo o
mundo, representantes do clero e leigos, sob a presidência do Arcebispo de
Cantuária. No entanto, isto tenderia a confundir a Conferência de Lambeth com
as estruturas sinodais das igrejas locais e nacionais e movê-la na direção a um
"sínodo mundial". O chamado de um Congresso Mundial Anglicano de tempos
em tempos pode ser mais apropriado para presbíteros/presbíteras,
diáconos/diáconas e laicato reunirem-se com os bispos em um fórum internacional.
Exploramos esta proposta no Apêndice II.
6.17
Uma abordagem alternativa seria sugerir que a reunião de bispos continue sendo
vista colegialmente, ainda que no contexto da existência da Igreja como um
todo. Na medida que os bispos são pessoas representativas eles deveria
compreender Lambeth como uma oportunidade de trazer questões e interesses de
suas próprias dioceses para a consideração de irmãos e irmãs bispos. Poucas
questões são inteiramente peculiares a uma determinada diocese e o compartilhar
de experiências e abordagens para a resolução de dificuldades atenua o fardo da
tomada de decisão.
6.18
Na última Conferência de Lambeth, o Arcebispo de Cantuária convidou os bispos
participantes "a trazer suas dioceses com eles". Na mesma Conferência
de Lambeth, os bispos votaram em resoluções levando em consideração um processo
consultivo anterior que já havia ocorrido em suas próprias dioceses e
Províncias e no ACC-7 ( Conselho Consultivo Anglicano ). Um exemplo óbvio foi a
resolução do Relatório Final da ARCIC I (Comissão Internacional Católico Romana-
Anglicana) o qual expressou um "desígnio que abrange toda a Comunhão"
em consonância com ARCIC e a fé dos Anglicanos. Esta resolução não expressou
apenas o desígnio de bispos agindo completamente sozinhos, mas como porta-vozes
que refletiam o desígnio de suas Províncias e estavam juntos expressando o
desígnio da comunhão.
6.19
Os bispos agindo colegialmente podem falar profeticamente para a Igreja e o
mundo. Em algumas questões tais como, por exemplo, ordenação, a própria Igreja
deveria esperar o conselho daqueles a quem a responsabilidade da ordenação foi
dada. Quando os bispos falam para a Igreja, no entanto, não deveria ser de uma
forma autocrática, mas de uma maneira que dê uma contribuição positiva e
estimule uma conversação contínua na vida mais ampla da Igreja. A verdadeira
liderança exige consulta e parceria.
III. Responsabilidade
na Conferência de Lambeth
6.20
Bispos são responsáveis por suas palavras e ações em Lambeth, perante Deus e
toda Igreja. Os bispos em Lambeth devem representar aqueles que não tem voz,
aqueles que não podem contar com ninguém mais para contar sua história e
defender seus interesses; aqueles cujos interesses a sociedade e/ou a Igreja
tenha escolhido, algumas vezes deliberadamente, algumas outras vezes por
esquecimento. Quando os bispos consideram-se responsáveis por aqueles que tem
menos que eles é que se descobre o caminho para o Reino de Deus.
6.21
A diocese deve ser levada a Lambeth pelo bispo, e Lambeth através do bispo de
volta à diocese. É uma maneira importante de envolver toda a membresia do povo
de Deus nos problemas e pensamentos da comunhão em todo o mundo. Programas
educacionais pós-Lambeth podem ditar isto, além da habitual publicação de um
relatório de seus procedimentos, recursos educacionais, fitas cassete e de
vídeo deveriam ficar disponíveis para ajudar os bispos a compartilhar a
experiência de Lambeth.
6.22
Novamente existem questões que valem a pena ser discutidas. Uma Conferência que
acontece a cada dez anos é muito freqüente para permitir preparação adequada,
consulta e recepção? Qual é a natureza da autoridade da Conferência? Quão
obrigatórias são as resoluções da Conferência? Como as questões deveriam ser
selecionadas e preparadas; quais interesses deveriam ser discutidos? Qual a
forma de relatório ou carta pastoral que melhor fortaleceria a comunhão da Igreja?
A Conferência de Lambeth é um instrumento eficiente de unidade da Comunhão
Anglicana; qual é sua vocação especial em relação ao movimento para a visível
unidade da Igreja? Qual deveria ser o papel dos participantes ecumênicos? Como
a Conferência de Lambeth poderia encorajar o desenvolvimento de supervisão
compartilhada com outras tradições Cristãs? Como a autoridade da Conferência de
Lambeth relaciona-se com a autoridade de outras igrejas, em particular aquelas
igrejas que reivindicam ser a Igreja?
II.
O Conselho Consultivo Anglicano
6.23
Único entre os instrumentos Anglicanos internacionais de unidade, o Conselho
Consultivo Anglicano (ACC) inclui leigos entre seus membros. A inclusão de
leigos nos grupos de tomada de decisões tem sido por muito tempo um princípio
da vida Anglicana. Assim, o sacerdócio real de todo o povo de Deus (1 Pedro
2:9), e a reciprocidade e interdependência dos vários ministérios dentro da
Igreja são atestados e afirmados. Devem ser encontrados meios para honrar a
experiência e conhecimento específicos que vários membros leigos trazem e
também fornecer a eles quaisquer que sejam os recursos e experiências que eles
possam necessitar a fim de participar completamente e com responsabilidade da
vida da Igreja de Deus.
6.24
É importante que estas ricas experiências de estar em comunidade não sejam
perdidas pela raridade dos encontros ou pelos encontros muito grandes. Também é
significativa a participação de membros de dois terços do mundo que representam
uma maioria crescente na Comunhão e cujas questões ocupam cada vez mais os
interesses da Comunhão. Todo esforço tem de ser feito para que as pessoas cuja
língua materna não é o inglês possam se comunicar livremente e efetivamente, de
forma que não haja nenhum sentimento de exclusão.
6.25
A missão do Conselho Consultivo Anglicano é representar os interesses da
Comunhão, na Comunhão e para a Comunhão. A maior parte deste trabalho é
realizada dia após dia pelo Secretário Geral e o Secretariado. No entanto, para
ser eficiente e digno de confiança, o Secretariado deve ser dirigido por um
grupo de referência que está informado, tem continuidade e também é
representante da diversidade da Comunhão. Ele deve ser adequadamente provido de
auxiliares.
6.26
Há dois caminhos possíveis nos quais a mudança poderia ser realizada de forma a
intensificar a natureza representativa do ACC e sua eficiência: primeiro,
através da criação de um conselho menor que se reuniria mais freqüentemente, ou
de forma alternada, através do aumento do Comitê Permanente e deixando o
tamanho e freqüência do ACC como está agora. É importante que haja um
equilíbrio na representatividade de leigos e clero, com maior continuidade de
membros do que é atualmente. Os representantes deveriam ter o direito ou
privilégio de entrar nos conselhos de sua própria igreja e ser instruídos a
respeito de seus problemas e interesses.
6.27
A existência do Conselho Consultivo Anglicano levanta algumas questões de
natureza geral. Qual é a relação deste grupo com a Conferência de Lambeth e com
o Encontro de Primazes? Qual deveria ser o papel do ACC ao contribuir para as
questões principais que devem surgir antes da Conferência de Lambeth e na
recepção das resoluções de Lambeth? As tarefas em andamento da Comunhão
deveriam ser realizadas por um secretariado ampliado ou por reuniões do ACC ou
por uma combinação dos dois? Quem é responsável pela continuidade dos membros
no ACC; são os próprios membros ou os Primazes que tomam esta decisão? Qual é a
natureza da responsabilidade daqueles que foram eleitos para servir no ACC?
I.
O Encontro de Primazes
6.28
O Encontro de Primazes fornece a oportunidade para aconselhamento mútuo,
cuidado pastoral e apoio de um ao outro e do Arcebispo de Cantuária. Seus
encontros tem uma autoridade inata pela virtude do ofício que eles mantêm como
pastores chefe. O Encontro oferece um lugar entre as Conferências de Lambeth
para cada um compartilhar as questões veementes ou persistentes de suas
Províncias e de seu próprio ministério primacial. É o contexto no qual Primazes
podem identificar questões comuns e resolver problemas pendentes. Também fornece
um horizonte mais amplo do que o Provincial que torna possível ao Primaz
considerar uma questão regional em um contexto mundial. Há uma oportunidade
para, juntos, aceitar responsabilidades com respeito ao bem estar de todas as
igrejas.
6.29
Os Primazes, na verdade, acharam mais fácil afirmar colegialidade pelo desejo
de consulta, estudo e apoio mútuo do que o exercício de liderança pastoral,
moral e doutrinal. Esta experiência levanta ainda, em outro contexto, a
importância teológica e prática de manter unido os modelos individual, colegial
e comunitário do episcopé.
6.30
Cada Primaz exerce seu ministério primacial individual com seus colegas bispos
e sínodo de sua Província. De forma semelhante, o Arcebispo de Cantuária exerce
seu ministério de toda Comunhão tanto colegialmente como comunitáriamente. Da
mesma forma, a colegialidade do Encontro de Primazes é exercida em relação com
os elementos individuais e comunitários do episcopé no nível de toda Comunhão.
6.31
O exercício da colegialidade recíproca e com o Arcebispo de Cantuária, bem como
o exercício de colegialidade com todos os bispos na Conferência de Lambeth,
levanta a questão da relação do Encontro de Primazes com as reuniões comunitárias
do Conselho Consultivo Anglicano. Deve-se observar que, enquanto o Comitê
Permanente do Encontro de Primazes se reúne com o Comitê Permanente do ACC,
isto raramente acentuou as relações com o ACC. Como um instrumento de unidade
mundial dentro da Comunhão, o Encontro de Primazes tem a responsabilidade de
manter um relacionamento animador com o ACC, de forma que o exercício colegial
e comunitário da supervisão sejam realizados juntos. O Arcebispo Donald Coggan
comentou na Conferência de Lambeth de 1978 que o encontro de Primazes deveria
estar em contato mais estreito e mais íntimo com o ACC. O que isto significaria
de fato na prática ainda tem que ser formulado.
6.32
Até onde a tarefa do Encontro de Primazes deveria ser responsabilizar-se pelo
monitoramento do progresso de recomendações e resoluções, que originam-se na
Conferência de Lambeth no intervalo entre as Conferências? Por exemplo, no
período que se seguiu a Lambeth 1988, os Primazes receberam e promulgaram as
recomendações da Comissão Eames para a Comunhão. O Encontro de Primazes também
submeteu às Províncias o Porvöo Common Statement (Declaração Comum Porvöo) e o
Concordat of Agreement ( Concordata de Consentimento ).
6.33
No capítulo 3 (parágrafo 3.50) foi observado que os Primazes relutam em fazer
um exame sério da resolução 18 Seção 2 (a) de Lambeth 1988, a qual pede que os
Primazes exerçam grande responsabilidade no oferecimento de liderança em
questões doutrinais, morais e pastorais. Devia-se esperar que os Primazes
fizessem declarações oficiais, ou o Encontro de Primazes deveria ser encorajado
a exercer seu papel pastoral em primeiro lugar, tanto para seus próprios
membros, como para a Comunhão? Qual é a relação entre o encontro de Primazes e
a Conferência de Lambeth e o Conselho Consultivo Anglicano? Os Primazes possuem
recursos suficientes para seu ministério?
II.
A Inter-relação de
Instrumentos Da Comunhão
6.34
Ao revisar os instrumentos mundiais de comunhão, este relatório,
ocasionalmente, fez comentários sobre a relação de uns com os outros e sobre a
sua inter-ligação com estruturas em outros níveis da vida da Igreja. Os três
instrumentos, o ACC, o Encontro de Primazes e a Conferência de Lambeth possuem
suas próprias características distintivas e potencialmente mantém em equilíbrio
e tensão três aspectos da existência da Comunhão. Lambeth enfoca a relação de
bispos com bispos e, portanto, dioceses com dioceses. O Encontro de Primazes enfoca
a relação de Primazes com primazes e, portanto, Províncias com Províncias. O
ACC, que é a reunião mais completa, representa a voz da vida interior da
Província, com representantes leigos, clero e bispos. Estes três instrumentos
de interdependência são presididos pelo Arcebispo de Cantuária, enfocando assim
a unidade e diversidade da Comunhão.
6.35
No momento atual, as relações estruturais formais e contínuas entre Conferência
de Lambeth, Conselho Consultivo Anglicano e Encontro de Primazes são de
responsabilidade do Secretário Geral e do Secretariado da Comunhão Anglicana,
os quais fornecem pessoal para os três grupos. Maior transparência nas relações
entre os próprios instrumentos da comunhão contribuiriam para relações
criativas, efetivas e sustentáveis dentro da Comunhão Anglicana. É urgente que
caminhos sejam encontrados para fortalecer os recursos do Secretariado do ACC,
caso este deva servir efetivamente às estruturas mundiais da convivência
Anglicana.
III.
Reflexões Finais
6.36
Um entendimento mais profundo dos instrumentos de comunhão em um nível mundial,
suas relações um com o outro e com os outros níveis da existência da Igreja,
deveria levar a um funcionamento mais coerente e inclusivo de supervisão a
serviço da koinonia da Igreja. Quando o ministério da supervisão é exercido de
forma pessoal, colegiada ou comunitária, imbuído dos princípios de complementaridade,
responsabilidade e interdependência, então a comunidade está protegida contra o
autoritarismo, as estruturas servem à vida pessoal e relacional da Igreja e o
dom diverso de todos é fortalecido a serviço de todos. A Igreja é, assim,
aberta a receber os dons do Espírito Santo para missão e ministério e
capacitada a servir mais efetivamente à unidade e comunidade humanas.
6.37
Concentramo-nos, necessariamente, no relatório, sobre os instrumentos mundiais
da Comunhão Anglicana. No entanto, em virtude de nosso batismo, temos uma
comunhão com a Santíssima Trindade e, portanto, com a Igreja universal. A longa
história do envolvimento ecumênico, tanto local como internacionalmente, tem
nos mostrado que o discernimento e tomada de decisões anglicanos devem levar em
conta as percepções da verdade e a sabedoria guiada pelo Espírito de nossos
parceiros ecumênicos. Além disso, quaisquer decisões que tomamos devem ser
oferecidas para discernimento da Igreja Universal.
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Apêndice
I
Conferência
de Lambeth 1988 Resolução 18
A
Comunhão Anglicana: Identidade e Autoridade
|
Esta
Conferência:
1. Decide
que a nova Comissão Inter-Anglicana Teológica e Doutrinal (ou uma comissão
inter-Anglicana especialmente designada) seja solicitada a encarregar-se em
caráter de urgência de uma exploração mais aprofundada do significado e
natureza da comunhão, com particular referência à doutrina da Trindade, unidade
e ordem da Igreja, e unidade e comunidade humana.
2. (a)
Insiste que um encorajamento seja dado para desenvolver o papel colegiado do Encontro
de Primazes sob a presidência do Arcebispo de Cantuária, de forma que o
Encontro de Primazes seja capaz de exercer uma responsabilidade acentuada no
oferecimento de orientação em questões doutrinais, morais e pastorais.
(b)
Recomenda que na indicação de qualquer futuro Arcebispo de Cantuária, a
Comissão de Indicações Crown seja solicitada a colocar os Primazes da Comunhão
no processo de consulta.
3.
Decide que a Conferência de Lambeth como uma conferência de bispos da Comunhão
Anglicana deveria continuar no futuro, em intervalos adequados.
4. Recomenda
que as conferências regionais da Comunhão Anglicana deveriam ocorrer entre as
Conferências de Lambeth como e quando a região interessada acredita que seja
apropriado; e no caso destas conferências regionais serem chamadas, deveriam
ser abertas à região interessada para torná-las representativas do clero e do
laicato bem como dos bispos.
5. Recomenda
que o ACC continue a realizar as funções definidas em sua Constituição (desenvolvida
em conseqüência da Resolução 69 da Conferência de Lambeth 1968) e afirmadas
pelo processo de avaliação relatado para o ACC-6 (ver Laços de Afeição, páginas
23-27); em particular, continuar seu papel de deliberação, consulta, conexão e
comunicação dentro da Comunhão (e fazê-lo em estreita cooperação com o Encontro
de Primazes).
6. Requer
que o Arcebispo de Cantuária, juntamente com todos os Primazes da Comunhão
Anglicana, apontem um grupo consultivo para Livros de Oração da Comunhão
Anglicana. O grupo deveria incumbir-se da tarefa de oferecer encorajamento,
apoio e conselho às Igrejas da Comunhão em seu trabalho de revisão litúrgica,
bem como facilitar a consulta mútua, e revisão, relativa a seus Livros de
Oração de forma que eles sejam desenvolvidos no sentido de assegurar:
( a ) a leitura pública das Escrituras em uma língua
compreendida pelas pessoas e instrução de todo povo de Deus na fé
escriturística por meio de sermões e catecismo;
( b ) o uso dos dois sacramentos ordenados por Cristo,
Batismo com água em nome da Trindade, e a Santa Comunhão com pão e vinho e
intenção explícita de obedecer ao mandamento de nosso Senhor;
( c ) o uso de formas de ordenação episcopal para cada
uma das três ordens através da oração com imposição de mãos;
( d ) a recitação pública e ensino dos Credos Niceno e
Apostólico, e
( e ) o uso de outras expressões litúrgicas de unidade
na fé e vida pela qual todo o povo de Deus está nutrido e sustentado, com
contínua percepção dos desenvolvimentos litúrgicos ecumênicos.
NOTAS
EXPLICATIVAS
Número
1 acima. Se existe a possibilidade de ordenação feminina no episcopado em
algumas províncias, isto lançará num enfoque mais agudo a natureza fragilizada
da comunhão na atualidade. É uma questão de urgência que façamos mais adiante
um exame teológico e uma reflexão sobre o significado de comunhão em um
contexto trinitário para a Comunhão Anglicana. Tal exame deveria referir-se a
discussões ecumênicas que exploram questões semelhantes. Isto, mais do que
estruturas, fornecerá um embasamento teológico nas quais as diferenças podem
ser conduzidas.
Número
2 acima. Percebemos um papel acentuado dos primazes como a chave para o crescimento
da interdependência dentro da Comunhão. Não vemos qualquer jurisdição
inter-Anglicana como possível ou desejável; uma estrutura sinodal
inter-Anglicana seria virtualmente impraticável e muito cara. Um papel colegial
para os primazes, ao contrário, poderia ser facilmente desenvolvido, e seu
julgamento e conselho coletivo teria uma importância considerável.
Se
isto é verdade, não é impróprio ou fora de questão sugerir que parte deste
processo consultivo anterior à indicação de um futuro Arcebispo de Cantuária
deveria ser em consulta com os primazes.
Número
3 acima. Estamos convencidos que há um valor considerável nos bispos da Comunhão
Anglicana reunindo-se como bispos, tanto em termos de entendimento mútuo como
também de um agente efetivo de interdependência.
Número
4 acima. Questões regionais precisam soluções regionais. Conferências regionais
também podem preparar-se para representação mais abrangente.
Número
5 acima. Damos importância ao trabalho atual do ACC. Não entendemos, no
entanto, que ele poderia ir além de seu atual papel de aconselhamento.
Número
6 acima. O interesse pela maneira como a Igreja celebra os sacramentos de
unidade e com quais conseqüências o realiza é uma expressão central de cuidado
episcopal e supervisão pastoral na Igreja de Deus. Como bispos da Igreja
Anglicana, temos uma responsabilidade particular em garantir estes elementos de
adoração que alimentam nossa identidade e unidade em Cristo e que, portanto,
tem uma autoridade sobre nós como Anglicanos. ( Uma resolução paralela, porém
significativamente diferente, foi proposta pelo Conselho Consultivo Anglicano:
Resolução 12 do ACC-7 ).
(Ver
parágrafos adicionais 113-152 do Relatório sobre Preocupações Dogmáticas e
Pastorais)
|
Apêndice
II
Um
Congresso Anglicano
|
1. Ao
considerar os instrumentos mundiais da unidade Anglicana, a Comissão considerou
que papel e contribuição um Congresso Anglicano traria no futuro. A Comissão
não viu um Congresso como tornando-se um quinto instrumento de unidade para a
Comunhão Anglicana. Apesar disto, ela reconheceu a oportunidade criativa que um
Congresso poderia oferecer à Comunhão, de tempos em tempos, para a renovação
de sua vida, testemunho e missão. Ao mesmo tempo a Comissão estava
consciente que, em um tempo de pressão econômica em todas as instituições, o
chamado para um Congresso colocaria um esforço financeiro adicional sobre a Comunhão.
2. Os
parágrafos seguintes começam a explorar algumas questões que necessitariam ser
consideradas se fosse julgado momento certo para a convocação de um congresso
Anglicano.
3. Congregações
e comunidades locais são mais fortes quando existem oportunidades regulares
para reunir-se em adoração, reuniões sociais e outras festividades. Os laços de
amizade entre os indivíduos e famílias são fortalecidos quando eles
compartilham as mesmas alegrias e sofrimentos. Ocasiões semelhantes oferecidas
para Anglicanos em níveis Provincial, regional e mundial, também poderiam
desenvolver e fortalecer laços de afeição dentro da Comunhão.
4. Um
Congresso Anglicano Mundial, talvez realizado uma vez a cada dez anos,
forneceria a oportunidade para reunir representantes de várias vocações e
esferas da vida. Poderia fornecer uma ocasião para conversação, e para
compartilhar necessidades e oportunidade para oração e adoração.
5. No
planejamento do Congresso, Províncias e dioceses deveriam ser convidadas explicitamente
a propor participantes que tenham uma variedade de dons dados por Deus para
oferecer a capacidade de receber os dons de outros e ser enriquecidos por eles.
Seria da essência de tal Congresso que a diversidade de contextos culturais na
qual a Igreja Anglicana tem suas raízes fosse visível.
6. O
Congresso necessitaria ser planejado de tal forma que comunicação mútua
inter-cultural pudesse acontecer. Mesmo se existisse um pequeno número de
línguas oficiais na conferência, é necessário que atenção seja dada ao modo e
estilo de comunicação, de forma a facilitar genuína doação e recebimento.
Deveria se dar mais valor ao contato face à face, ao contrário de conferências
amplas e genéricas, que inibem a resposta e o diálogo. Nem a comunicação mútua
deveria ser considerada como um fim em si mesma, porém como governada e
servindo ao objetivo de missão universal da Igreja, sob a orientação do
Espírito Santo. Um Congresso não deveria ser tão firmemente estruturado e
organizado que inibisse a liberdade do Espírito e o fruto de nova descoberta e
de intuições e alegria contagiosas.
7. O
Congresso necessitaria estar atento à particularidade de contexto e vida e um
esforço seria feito para evitar vagas generalidades. A ênfase seria dada na
qualidade e profundidade, e não em quantidade e superficialidade. O Congresso
evitaria turismo global e retórica internacional vaga ou de moda, e daria a
oportunidade para a exploração aprofundada da complexidade.
8. Se
esta for uma reflexão apropriada da vida da Comunhão Anglicana, seria essencial
que os participantes fossem participantes com o coração na missão da igreja
local e entendam e aceitem a responsabilidade de retorno para aquela igreja,
tanto na preparação para o congresso como na continuidade do Congresso.
9. O
quadro de membros do congresso deveria incluir leigos, diáconos e diáconas,
presbíteros e presbíteras e bispos. O Arcebispo de Cantuária presidiria, e
estaria acompanhado por um número de Primazes, bem como por outros bispos.
Esforços deveriam ser feitos para simbolizar os aspectos pessoal, colegial e
comunitário do ministério do Arcebispo. Ao mesmo tempo que a unidade da Igreja
é feita visível, o reconhecimento da diversidade dos dons de Deus também
deveria ser expresso. Deveria haver uma oportunidade para mostrar como a pluralidade
e unidade são conduzidas juntas dentro da fraternidade única.
10. Sendo
um Congresso internacional, não seria adequado tomar decisões ou apresentar resoluções.
Uma mensagem à Comunhão poderia ser uma forma de comunicação adequada.