estudo bíblico
Palavras para tempos de crises...

Uma aproximação ao livro de Deuteronômio

(Primeira Parte)


Importância

O livro de Deuteronômio tem uma importância singular no conjunto das Escrituras. Em primeiro lugar, do ponto de vista da formação das tradições bíblicas, é consenso entre os comentaristas que é o ponto de arranque ou o início do cânon do Antigo Testamento. Em segundo lugar, pode ser considerado um livro “ponte”, porque com ele termina o Pentateuco (Gênesis até Deuteronômio), e se inicia outro conjunto, aquele formado pelos chamados livros históricos (Josué até 2 Reis). Deuteronômio compartilha com ambos os conjuntos parte de sua temática. Em terceiro lugar, está perto de livros sapienciais, como Provérbios; e é marcante sua influência em livros proféticos, como Joel e Jeremias. Em quarto lugar, no social, é um dos documentos mais humanos e humanitários do Antigo. Testamento. Deuteronômio mostra uma grande preocupação pelos pobres, pelos escravos, pelos estrangeiros, pelos devedores, pelas prisioneiras de guerra. (cf. Dt 14,28-29; 15,11-18; 21; 22; 24 etc.)1. Finalmente, junto com Isaías e Salmos, é um dos livros mais citados no Novo Testamento (83 vezes).

Tudo o anteriormente expresso justifica que se afirme, em primeiro lugar, que Deuteronômio tem desempenhado um papel vital no desenvolvimento da fé bíblica; em segundo lugar, que o livro tem que ser considerado como o centro da teologia bíblica, porque é nele onde aparecem concentrados os elementos básicos da teologia do Antigo Testamento2; e, finalmente, que não existe um livro mais importante para a compreensão do Novo Testamento e a missão cristã que o livro de Deuteronômio3.

Então, convido os leitores e leitoras para começarem uma caminhada por esse fascinante livro.

O nome

Deuteronômio é o nome que a primeira tradução grega do Antigo Testamento, conhecida como a Septuaginta (LXX), deu ao quinto livro das Escrituras hebraicas. Supunha-se que houvesse uma “primeira lei” e que o Deuteronômio fosse um resumo dessa lei dentro do marco de uma nova aliança. E, com isto, se colocava o livro na linha dos documentos legais.

Porém, o nome hebraico é eleh hadebarim, ou seja, “estas são as palavras”. E realmente o nome hebraico define melhor e de maneira mais ampla o caráter do livro. Porque realmente o Deuteronômio é um livro de palavras. São as palavras da personagem central do livro, Moisés, e muito poucas vezes aparecem as palavras do narrador.

Desta maneira, o Deuteronômio, formando parte da Torah (A Lei) ? nome com o qual são conhecidos os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica ? não é um livro legalista. Seu estilo (ensinos, exortações, chamamentos, conselhos, advertências) parece mais próprio de um pregador que de um legislador. Inclusive o núcleo central do livro (Dt 12-26), conhecido como Código Deuteronômico, não tem as características literárias de um código de leis. Por isso, diz-se que o Deuteronômio “é uma lei pregada” (von Rad)4.

Época, local e autoria do Deuteronômio

Partindo-se do princípio de que os textos bíblicos não são “livros” no sentido moderno do termo, é consenso, na pesquisa bíblica, que o livro de Deuteronômio é um mosaico de inúmeras peças de tradições diversas. Em termos modernos, em sua forma atual, deve ser considerado uma coletânea ou uma antologia5. O próprio livro oferece vários títulos em diferentes partes (cf. 1,1; 4,44; 6,1; 12,1). Então, o conjunto do livro mostra um longo e complexo processo de crescimento, que se estenderá até o exílio babilônico (587-539 a.C.), e, talvez, segundo alguns comentaristas, até o princípio do pós-exílio no século V a.C.6

A opinião mais aceita é que as primeiras manifestações escritas se encontram no reino do Norte, Israel, durante o reinado de Jeroboão II (786-746 a.C.)7. Isso vincula as origens do livro ao período de atuação dos profetas Elias, Eliseu, Amós e Oséias, e à queda de Samaria e ao fim do reino de Norte, pelas mãos dos Assírios, em 722 a.C.

A partir daqui, as tradições deuteronômicas passarão ao sul, Judá, influenciando as reformas de Ezequias (716-687 a.C) e Josias (640-609 a.C), no meio da dominação Assíria. Finalmente, influenciarão a formação da chamada Obra Historiográfica Deuteronomista (OHD), nome que a pesquisa bíblica dá ao conjunto que vai de Josué até 2 Reis, obra que tenta explicar o exílio da nação, agora pelas mãos dos Babilônicos, em 587 a.C.

Com relação à autoria, as antigas tradições judaicas vinculavam o Deuteronômio a Moisés. De fato, literariamente, o livro se apresenta como as palavras de Moisés ao povo prestes a entrar na Terra Prometida (cf. Dt 1,1; 4,44; 6,1; 12,1). No entanto, já a pesquisa bíblica demonstrou que Moisés não escreveu pessoalmente o conjunto do livro. Porém, isso não significa que as tradições vinculadas à figura e às tradições de Moisés não sejam um importante eixo para compreender o sentido do livro.Contudo, não devemos ficar assustados por esse fato, porque, no mundo antigo, não existiam os princípios de autoria que temos no mundo moderno, e era costume dar nome de figuras e personagens importantes aos textos para garantir sua autoridade e relevância.

Mas, então, quem escreveu o Deuteronômio?

Atualmente a hipótese mais aceita pela pesquisa bíblica é que a autoria do Deuteronômio se encontra em um movimento ou coalizão de sábios populares (homens e mulheres), sacerdotes marginalizados e levitas, profetas e profetisas. Movimento que se desenvolveu durante os dois séculos de dominação Assíria, primeiro em Israel e depois em Judá, e que caminhava em direção contrária aos interesses da monarquia judaíta (cf. Dt 16,18; 17,14-20; 20,1-9)8, da burocracia palaciana, do sacerdócio de Jerusalém e dos acumuladores de terras (Is 5,8; Mi 2,1ss)9.

Enfim, e termino esta primeira parte, Deuteronômio é um livro que nasce no meio de um povo em transição, de uma nação ameaçada por tentações e desastres, para uma geração cuja tarefa era conquistar uma nova terra e construir uma nova sociedade10.

Então, não se torna atual o livro de Deuteronômio para nossa América Latina?

Na próxima parte, vamos nos ocupar da mensagem e da teologia do Deuteronômio.
Rev. Dr. Pedro Triana
Clérigo da Diocese Anglicana de São Paulo, Ministro Auxiliar na Paróquia de Todos os Santos, membro da Comissão de Ministérios da Diocese e professor do IAET.
(1) Segundo Moshe Weinfeld, é precisamente esse vínculo com a literatura sapiencial o que dá ao livro seu caráter humanístico. Veja Moshe Weinfeld, Deuteronomy and the Deuteronomic School, Oxford, Clarendon Press, 1972, p.294-306; e Félix García López, El Deuteronomio. Una ley predicada, Estella, Verbo Divino, 1989, p.22.
(2) Gerhard Hasel, Old Testament Theology: Basic Issues in the Current Debate, Grand Rapid, Wm. B. Eerdmans, 1991, p.156.
(3) P. Vassiliadis, God’s Will for his People: Deuteronomy 6,20-25 International Review of Mission (IRM), Geneve, 77 (1988), p.179.
(4) Veja Gerhard von Rad, Deuteronomy – A Commentary, Philadelphia, Westminster Press, p.17-23 e Antonio González Lamadrid, “Historia Deuteronomista”, em Historia, Narrativa e Apocalíptica, Navarra, Verbo Divino, 2000, (Introducción al Estudio de la Biblia), p.57-58.
(5) Júlio Paulo Tavares Zabatiero, Tempo e espaço sagrados em Dt 12,1-17,13 – Uma leitura sêmio discursiva, Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2001, (Tese de doutorado), p.44.
(6) Confira-se agora Júlio Paulo Tavares Zabatiero, op. cit., p.31-51. Veja também Rainer Albertz, Historia de la religión de Israel en tiempos del Antiguo Testamento, Madrid, Editorial Trota, 1999, (v.1, De los comienzos hasta el final de la monarquía), p.373-376.
(7) Contra essa hipótese, M. Weinfeld e N. Lohfink. Veja-se Moshe Weinfeld, cit, e Júlio Paulo Tavares Zabatiero, cit., p.35-38.
(8) Veja Rainer Albertz, cit ., p.421-423).
(9) Veja Júlio Paulo Tavares Zabatiero, cit., 79-81.
(10) Edesio Sánchez, Deuteronomio, Buenos Aires, Kairos, 2002, (Comentário Bíblico Iberoamericano), p.35.

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