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Uma aproximação ao livro de Deuteronômio Mensagem, teologia e estrutura (Segunda Parte)
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Introdução
Na primeira parte de nossa caminhada pelo livro de Deuteronômio, nos ocupamos de comentar a importância, o nome e os problemas de época, local e autoria. Agora propomos falar da mensagem, teologia e estrutura de nosso livro.
Mensagem
Como tínhamos dito, o Deuteronômio no seu conjunto é um livro que nasce no meio de um povo em transição e de uma nação ameaçada por tentações. Mas, acima de tudo, nasce para tentar dar uma resposta ao desastre da nação, que levou à queda de Jerusalém pelas mãos dos babilônicos em 586 a.C. E, nesse contexto, Deuteronômio tem como interlocutores e destinatários a geração de exilados, cuja tarefa era conquistar uma nova terra e construir uma nova sociedade.
Para esse propósito, os redatores deuteronomistas retomaram a história passada de Israel e Judá, mostrando tanto o que Yahvé, como o povo, tinham feito. Desde o princípio, o Deuteronômio apresenta os critérios a partir dos quais ia ser julgada e avaliada a história de Israel e Judá. E a primeira mensagem que os deuteronomistas apresentaram à comunidade de exilados foi a desobediência do povo às demandas da aliança (Dt 28,15-68), mais particularmente das lideranças de Israel. E eis aqui a fonte de todos os problemas: as lideranças tinham conduzido o povo pelo caminho errado e o povo tinha dado as costas a Yahvé1.
Contudo, o merecido castigo pela desobediência às demandas da aliança não é a última palavra do deuteronomista. E eis aqui a segunda e grande mensagem: nem tudo terminou para Israel. Apesar da dor do desastre nacional e do exílio, o povo pode ver uma luz de esperança. Mas o requisito para essa renovação, para essa prosperidade total, é voltar às raízes, o que significa voltar para Yahvé (Dt 30,1-10). No passado estão as raízes, as promessas; no futuro está a concretização dessas promessas; mas, entre o passado e o futuro, coloca-se o presente, ou seja, a obediência do povo. Por isso, se o povo quer participar do futuro de Deus, deve ser responsável com as demandas de Deus no presente2 .
Assim, para uma comunidade que estava caindo na desesperança, o redator deuteronomista tem uma palavra de esperança. E uma renovação do amor do povo a Deus, uma volta às raízes traria “prosperidade total”. Assim, o passado, o presente e o futuro são colocados juntos para a comunidade do exílio: da mesma maneira que no passado, no presente, Deus estava disposto a realizar uma obra portentosa no futuro. Porém, ao que o redator deuteronomista estava convidando os exilados não era uma simples restauração senão a uma benção divina ainda maior (Dt 6,3; 10; 11; 18,12; 30,1-10).
Finalmente gostaria de enfatizar um último aspecto. Não existe outro livro da Bíblia que coloque a instrução de crianças e jovens no centro da sua mensagem, como faz o livro de Deuteronômio (Dt 4,9-10; 6,7.20-25; 11,19; 31,13). Tanto é assim, que Deuteronômio é o único livro do Pentateuco, ou seja, dos cinco primeiros livros da Bíblia, que utiliza o verbo “ensinar” (lamad). E, nesta demanda, Deuteronômio coloca ao pais como os sujeitos principais da obrigação do ensino (cf Dt 6,4-9)3.
Estrutura
Sendo Deuteronômio um livro multifacético, existem muitas maneiras de estruturá-lo. Então, propomos a seguinte estrutura:
- Discurso inaugural (1-4)
- Demandas à geração de hoje, ou seja, aos exiliados (5-11)
- O Código Deuteronômico – A lei da aliança (12-26)
- Demandas à geração de amanhã (27-30)
- O futuro do povo (31-41)
A primeira seção (Dt 1-4) é um resumo da história da geração passada e convida-se a geração do presente, ou seja, os exilados para um novo começo.
Já, na segunda seção (Dt 5-11), o “ontem” se faz “hoje”, ou seja, todo o passado se atualiza para o presente.
A terceira seção, chamada Código Deuteronômico (Dt 12-26), ou também de “Proto-Deuteronômio”, constitui o núcleo ou o coração do livro. Segundo a pesquisa bíblica, esses capítulos constituem a parte mais antiga do livro, muito provável da época pré-exílica4. E as duas demandas centrais que aparecem no Código Deuteronômico são, por um lado, fidelidade a Yahvé (cf. Dt 12,2-3.29-31; 13,1-18; 16,21-22; 17,2-7; 18,20; 20,15-18); e, por outro lado, misericórdia e justiça para com o desvalido e o empobrecido (Dt 14,29; 15,1-18; 16,9-20; 24,7.10-24).. Portanto, a prática da justiça e a fidelidade a Deus são assuntos de vida ou morte (Dt. 16,20; 13,1-19): são duas coisas inseparáveis. E que atualidade tem esta mensagem para nós, como a “nova geração de hoje”, como parte do “novo povo de Deus” em um “novo presente”!
A quarta seção (Dt 27-30) constitui a conclusão do Código e contém exortações para as gerações futuras.
Finalmente, a última seção (Dt 31-41) é a conclusão final do livro. Apresenta-se como as palavras de despedida de Moisés e prefigura uma situação futura de bem-estar e prosperidade tanto material, como espiritual. É o shalom veterotestamentário, que o Novo Testamento chamará depois “Reino de Deus”. Aqui Deus aparece como o refúgio eterno de Israel. E, finalmente, como um último aspecto se enfatiza o fato de que uma liderança vai embora (Moisés/antiga geração) e uma liderança nova chega (Josué/nova geração).
Então, para terminar e resumir estes dois primeiros estudos introdutórios, poder-se-ia dizer que Deuteronômio nasceu com ares renovadores, chegando a ser o referente principal da reforma de Josias (2 R 22-23). E, a partir daí, pode ser considerado o ponto de arranque ou o embrião do cânon do Antigo Testamento. Também, com seu aparecimento num momento crucial da história de Israel (final da monarquia), o templo e a profecia vão ser substituídos pelo “livro”. E este livro é o “livro da lei”, mas não é um livro legalista; é “uma lei pregada”, que chama e exorta para uma volta às fontes, às raízes. Finalmente, Deuteronômio poderia ser chamado um “livro de fronteira”5 , porque, canonicamente falando, é parte do Pentateuco; porém, por sua vez, é parte dos Profetas Anteriores, ou seja, o nome que a terminologia hebraica dá ao conjunto que vai de Josué até 2 de Reis, e que a pesquisa moderna chama de Obra Historiográfica Deuteronomista. De certa maneira, Deuteronômio é um resumo dos livros anteriores e, por sua vez, prepara a mensagens e a teologia dos livros que vêm a seguir.
No próximo estudo, começaremos a transitar por diferentes textos do centro e coração teológico de nosso livro: o Código Deuteronômico. |
Rev. Dr. Pedro Triana
Clérigo da Diocese Anglicana de São Paulo, Ministro Auxiliar na Paróquia de Todos os Santos, membro da Comissão de Ministérios da Diocese e professor do IAET. |
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(1) Martin Noth, The Deuteronomistic History, JSOT, Sheffield, 1981, p.89-99.
(2) Edesio Sánchez, Deuteronomio, Buenos Aires, Kairos, 2002, (Comentario Bíblico Iberoamericano), p.32.
(3) Idem, p.33
(4) Veja-se Antonio González Lamadrid, “Historia Deuteronomista”, em Historia, Narrativa e Apocalíptica, Navarra, Verbo Divino, 2000, (Introducción al Estudio de la Biblia), p.49-50 e Edesio Sánchez, cit., p.30-31.
(5) Veja Edesio Sánchez, cit., p.30 e Frank Crüsemann, A Tora – Teologia e história da lei do Antigo Testamento, Petrópolis, Vozes, 2002, p.292-298.
(5) Edesio Sánchez, cit., p.34. |
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