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estudo bíblico |
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Palavras para tempos de crises... Uma aproximação ao livro de Deuteronômio Um projeto de solidariedade (Quinta parte) |
E Javé te abençoará…
Dt 15,1-18 forma parte de um conjunto cúltico-litúrgico (Dt 14,22-16,17). Neste conjunto, se estabelece uma relação muito estreita entre levar oferenda e celebrar a festa, ou seja, adorar. O conjunto estabelece relações de solidariedade, partilha de propriedades, libertação de escravos e escravas e alimentos para os mais fracos da sociedade: os levitas (Dt 14,29), os empobrecidos e necessitados (Dt 15,4.7.9.11), os escravos e as escravas (Dt 15,12-15), o migrante/peregrino e o órfão e a viúva (Dt 16,11.14).
O termo barak (lit. abençoar) aparece repetidas vezes na frase “…Javé te abençoará…” (Dt 14,29; 15,10.18; 16,15). Relacionam-se, assim, o fato de receber benção de Javé e o de cumprir as leis que beneficiam aos mais fracos. Afirma-se, desta maneira, que não pode haver uma verdadeira adoração sem justiça social, pensamento que está muito na linha da pregação dos profetas Isaías e Miquéias (Is 1,10-18; Mi 3,4).
Cada sete anos...
A Bíblia não tem um relato da instituição do sábado e muitas hipóteses têm sido elaboradas para determinar sua origem. Contudo, a única certeza é que tem uma origem muito antiga em Israel, e que, a partir do exílio babilônico, chegou a ser uma marca de identidade que identificou o povo de Israel1 . Esta instituição, cujos regulamentos se encontram dispersos e com diferentes ênfases (Ex 20,22-23,33; 21,2-6; Lv 25,2-7; Dt 15,1-11), e que tem como transfundo diferentes contextos, é um grande projeto e uma magnífica utopia de libertação e solidariedade social.
A instituição do ano sabático, tal e como se apresenta em Dt 15,1-18, pode dividir-se em três momentos: Dt, 15,1-6; 7-11 e 12-18. Cada um desses momentos declara, sob ângulos diferentes, a necessidade da solidariedade e o cuidado para com os pobres a partir de novas relações socioeconômicas: o cancelamento das dívidas (Dt 15,1-6), os empréstimos aos pobres (Dt 15,7-11) e os regulamentos para a libertação dos escravos hebreus, sejam esses homens ou mulheres (Dt 15,12-18).
Para que entre ti não haja pobres...
O ano de remissão das dívidas que encontramos em Dt 15,1-6 não se encontra na legislação israelita anterior. No Código da Aliança, fala-se do descanso da terra (Ex 23,1-11), o que, em realidade, era um paliativo para que os pobres e os animais pudessem comer do que sobrava. Porém, esta legislação não perturbava o lucro que poderiam obter os proprietários, nem resolvia os conflitos, nem interferia nas relações socioeconômicas.
Termos como shemitta (lit. neste contexto/abrir mão/de empréstimos/de dívidas), mashsheh (lit. empréstimo) e ba‘al (lit. neste contexto/senhor, proprietário/ ou também credor) não deixam dúvidas do enfoque econômico do texto.
Vemos assim que o ano de remissão das dívidas é uma proposta radical, indo muito além de Ex 23,1-11. A proposta não é simplesmente um cancelamento das dívidas, mas interfere nos conflitos que levam ao endividamento, à dependência e conseqüentemente à pobreza e à escravidão. Está-se propondo que “entre ti não haja pobres”, ou seja, uma sociedade mais igualitária onde todas as pessoas possam ter o necessário para viver. Uma sociedade onde a irmandade, a justiça e a solidariedade social façam realidade o verdadeiro culto a Javé.
Não endureças o teu coração, nem feches a tua mão a teu irmão pobre
Em Dt 15,7-11, seção em destaque e situada no centro de nosso texto, temos uma grande exortação para que sejam feitas realidade a solidariedade e a justiça para com o irmão empobrecido. Dessa maneira, a criação de uma comunidade de irmãos e de irmãs é uma temática central, que se reforça com a frase “não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre” (Dt 15,7b). Assim, destaca-se o termo ’ah (lit, irmão), que aparece 25 vezes em Deuteronômio, particularmente no Código Deuteronômico (Dt 12-26), e das 25 vezes que aparece em Deuteronômio podemos encontrá-lo 5 vezes em nosso texto (Dt 15,2.3.7.9.11)2 .
Lembra-te de que foste servo na terra do Egito
Certamente a libertação de escravos e escravas (Dt 15,12-18) está estreitamente relacionada com a lei sobre o cancelamento das dívidas que abre nosso texto (Dt 15,1-6). Aqui a frase “irmão hebreu” 3 aplica-se tanto a homem como a mulher. Dessa maneira, as mulheres são incluídas especificamente na libertação. E isso significa um avanço com relação ao status da mulher em uma sociedade patriarcal, ainda que possa ter ficado simplesmente como um projeto ou uma utopia libertária4.
No entanto, não era suficiente libertar os escravos e as escravas, mas era preciso garantir-lhes os meios necessários para começar sua nova vida, para não terem que cair novamente na escravidão (Dt 15,13-14).
Enfim, tenha sido aplicado ou não em nível social, o projeto deuteronomista de libertação de escravos e escravas ficou como um profundo sonho libertário. E, pelo seu caráter inclusivo e abrangente, pela sua garantia de uma vida digna para os libertados, tendo como transfundo a memória libertadora do êxodo (Dt 15,15), lembrará sempre que esse Israel, que tinha nascido na liberdade, na igualdade e na justiça, devia promover sempre esses princípios para ser abençoado por Deus. Já no período do Novo testamento, o movimento de Jesus saberá estabelecer a sintonia com esse projeto libertador.
Hoje se cumpriu
Com Jesus, as leis do ano sabático são reatualizadas. No Pai Nosso, é proclamado o perdão das dívidas (Mt 6,12); na sinagoga de Nazaré, é retomado o projeto libertador do ano sabático (Lc 4,18-19) como um projeto que deve ser uma realidade sempre presente. E o último se reforça quando no texto se afirma “...hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4,18-19).
Então, e resumindo, pela forte carga utópica, as imagens, a mensagem e o clamor do ano sabático de que “...entre ti não haja pobres..” ultrapassam seu próprio tempo e contexto e nos desafiam a viver HOJE proclamando boas notícias para todas as pessoas excluídas, oprimidas, discriminadas e marginalizadas,.porque, somente vivendo e, sobretudo, agindo assim, “Deus nos abençoará”. |
Rev. Dr. Pedro Triana
Clérigo da Diocese Anglicana de São Paulo, Ministro Auxiliar na Paróquia de Todos os Santos, membro da Comissão de Ministérios da Diocese e professor do IAET. |
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(1) Roland de Vaux. Instituciones del Antiguo Testamento. Barcelona, Editorial Herder, 1992, p.598-607.
(2) Veja Jacques Briend, El Pentateuco, Estela, Verbo Divino, 1978, p.37-38.
(3) Neste contexto, diferente do Código da Aliança, o termo ‘ibri (lit. hebreu) não significa um grupo social, e sim a comunidade étnica dos israelitas. Veja Gerhard von Rad, Deuteronomy – A Commentary, Philadelphia, Westminster Press, 1966, p.107; Haroldo Reimer, “Un tiempo de gracia para recomenzar”, em: Revista de Interpretaci.ón Bíblica Latinoamericana, Quito/Ecuador, RECU, 1999, No.33., p.41; e Sharon H. Ringe, Jesús, la liberación y el Jubileo bíblico, San José/Costa Rica, DEI, 1966, p.45.
(4) Sobre esse assunto veja Frank Crüsemann, A Torá – Teologia e história da lei do Antigo Testamento, Petrópolis, Vozes, 2002, p.347-362. |
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